Discursividade no uso social da linguagem numa situação de produção do enunciado no Twitter – Álvaro Mozart Brandão Netto
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
FACULDADE DE LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS E LITERATURA
ÁLVARO MOZART BRANDÃO NETTO
DISCURSIVIDADE NO USO SOCIAL DA LINGUAGEM NUMA SITUAÇÃO DE
PRODUÇÃO DO ENUNCIADO NO TWITTER
MACEIÓ
2017
ÁLVARO MOZART BRANDÃO NETTO
DISCURSIVIDADE NO USO SOCIAL DA LINGUAGEM NUMA SITUAÇÃO DE
PRODUÇÃO DO ENUNCIADO NO TWITTER
Dissertação apresentada ao Programa de Pós
Graduação em Letras e Literatura da
Faculdade de Letras da Universidade Federal
de Alagoas como requisito parcial para a
obtenção do titulo de mestre
Orientadora: Profª Rita Maria Diniz Zozzoli
Linha de pesquisa: Linguística Aplicada
Maceió
2017
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Bibliotecária Responsável: Janaina Xisto de Barros Lima
B817d
Brandão Netto, Álvaro Mozart.
Discursividade no uso social da linguagem numa situação de produção do
enunciado no twitter/ Álvaro Mozart Brandão Netto. – 2017.
117 f. : il.
Orientadora: Rita Maria Diniz Zozzoli.
Dissertação (Mestrado em Letras e Lingüística: Linguística) –
Universidade Federal de Alagoas. Faculdade de Letras. Programa de PósGraduação em Letras e
Lingüística. Maceió, 2017.
Bibliografia: f. 113-115.
Apêndices: f. 116-117.
1. Plurilinguismo. 2. Cibercultura. 3. Twitter. I. Título.
CDU: 81’42:007
Dedico este trabalho aos humanos que, assim como
eu, não se intimidam com a vida e vão à luta contra os
destinos geográficos e históricos impostos pela vontade dos
homens. Saúdo a todos na pessoa de minha orientadora,
que também se engajou nessa luta apoiando, se dedicando
e acolhendo aqueles e aquelas que demonstram possuir
essa boa vontade.
AGRADECIMENTOS
Nas pessoas de minha orientadora, Rita Maria Diniz Zozzoli, e do seu
Crescêncio, pelo ouvido amigo e o cafezinho quente, aproveito para agradecer
com grande intensidade a todos que estiveram envolvidos, mesmo que à
distância, durante este rico e proveitoso processo de aprendizagem. Agradeço
aos colegas de sala de aula que demonstraram respeito às diferenças e aos que
partiram para o debate no campo das ideias, proporcionando preciosas e
prazerosas horas de discussões. Todos vocês, sem exceção, me tornam um todo,
no todo que há em vocês.
Quando estou só reconheço
Se por momentos me
esqueço
Que existo entre outros que
são Como eu sós, salvo que
estão Alheados desde o
começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio, contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.
FERNANDO PESSOA
RESUMO.
O conjunto teórico metodológico desta pesquisa qualitativa que se apropria de
certos aspectos etnográficos (Augusto N S Triviños, 1987) e interpretativistas
(Luiz Paulo Moita Lopes, 2006) promove um recorte no estatuto da produção de
discursos na atividade da comunicação atual. Numa ação colaborativa (Fritzen &
Lucena, 2012) realiza uma investigação para posterior análise sobre novas
formas semio-enunciativas discursivas, num caso particular de interação social no
Twitter. Portanto, no campo híbrido de pensamento
mestiço em L.A.
contemporânea, assume executar uma investigação que se interessou pelos
processos em que os sujeitos do discurso operam construções discursivas em
rede. No campo das orientações conceituais, quer dizer no aspecto geohistóricosocial mais amplo, ao criar interfaces entre áreas do conhecimento correlatas,
conseguiu consubstanciar avaliações que deram conta das formas e do conteúdo
(BAKHTIN M. , 2002) da língua e da linguagem (BAKHTIN M. , 2003),
considerando a evolução das interações sociais na contemporaneidade (LÉVY P.
, 2000) se envolve com estudos que abordam o gênero do discurso e
genericidade (ADAM, Jean Michel; HEIDMANN, Ute, 2004) a respeito da vida e
da interação social contemporânea, nas condições de produção discursiva na
internet. Para alcançar conclusões aproximadas com a realidade optou-se por
registros imagéticos, áudio e vídeo, dados da massa investigativa e notas de
campo sobre as práticas e atitudes discursivas de um sujeito do discurso no modo
informativo do jornalismo cotidiano. O resultado são análises que identificaram
transformações na forma do enunciado quando articulados entre suportes e, no
campo do plurilinguismo dialogizado, um intenso movimento das forças
centrípetas e centrifugas nos pronunciamentos do sujeito pesquisado, na ação do
grande diálogo social em rede.
Palavras-chave: Dialogismo. Twitte. Ciber Cultura.
ABSTRACT
In an ethnographic qualitative research perspective, interpretive and of
collaborative character, this study’s methodology proposes a cut in nowadays
communications’ statute of discursive genres, to analyze on new discursive
semioenunciative forms in a particular social interaction phenomenon on Twitter.
From the wider sociohistorical point of view, it gets involved with studies that
approach the genre in the discourse and genericity towards the contemporaneous
social life, in the discursive production conditions on the internet. In the hybrid and
mixed field of thought of contemporary AL, this investigation got interested in the
processes in which the discourse subjects operate discursive constructions,
creating interfaces with correlated areas of knowledge, aiming at examining the
language and discourse forms through the evolution of social interactions. To
reach those conclusions with the reality research, we went to analyze the
discursive practices and attitudes in the informative way of the daily journalism.
The results were the analysis that identified transformations on the form of the
enunciate when articulated between supports, and, in the field of the dialogized
multilingualism, an intense movement of the centripetal and centrifugal forces in
the researched subject’s statements, in the action of the great online social
dialogue.
Key words: Dialogism. Twitter. Cyber Culture
ABSTRACT
Dans une perspective de recherche qualitative ethnographique interprétatif et
collaborative, la méthodologie de cette étude faire une coup dans le statut de la
production de genres discursifs dans l'activité de communication actuelle, afin
d'effectuer une analyse sur les nouvelles formes de discours semi-enunciative
dans un phénomène particulier d'interaction sociale sur le Twitter . Du point de vue
socio-historique plus large, elle s'engage dans des études sur le genre du discours
et de la généticienne sur la vie sociale contemporaine, dans les conditions de la
production discursive sur Internet. Dans le domaine hybride de la pensée
croisemant dans l’L.A. contemporains, cette recherche s'intéresse aux processus
sur lesquels les sujets du discours opèrent des constructions discursives,
établissant des dialogues avec d'autres domaines de la connaissance, obectivant
d'examiner les formes de langue et de langage par l'évolution des interactions
politiques sociales. Afin d'aboutir à des conclusions approximatives avec la réalité
recherchée, nous avons pu observer les pratiques discursives et les attitudes de
mode informative du journalisme quotidien. Il en résulte des analyses qui ont
identifié des transformations sous la forme de l'énoncé lorsqu'elles sont articulées
entre les supports et, dans le domaine du plurilinguisme dialogué, un mouvement
intense des forces centripètes et centrifuges dans les declaration du sujet
recherché, au moment de l’action du dialogue du grand réseau social.
Mots-clés: dialogisme, Twitter, généricité et cyber-culture
Sumário
INTRODUÇÃO ................................................................................................ 11
1 REFLEXÕES NORTEADORAS .................................................................. 21
1.1 O plurilinguismo social no discurso do sujeito na mídia cotidiana ........... 33
1.2 A forma híbrida na dialogização interna do enunciado informativo .......... 44
1.3 Crítica ao caráter industrial do texto no jornalismo – o enunciado como média
de comunicação contemporânea .............................................................. 49
1.4 A genericidade da forma na composição do enunciado jornalístico ......... 55
1.5 A forma hibrida da nova estética gráfica do gênero narrativo informativo. 60
2
ORGANIZAÇÃO METODOLÓGICA ......................................................... 64
2.1 Reflexões de pesquisa: condições de produção discursiva ..................... 69
2.2 Narrativas etnográficas de uma situação do uso social da linguagem no
Twitter ....................................................................................................... 72
2.3 A inserção no campo da pesquisa ........................................................... 73
3
ANÁLISES DE ENUNCIADOS NAS POSTAGENS NO TWITTER ......... 97
3.1 Encaminhamentos para analises sócioideológicas das postagens no Twitter
..................................................................................................................103
4
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................107
5 REFERÊNCIAS ..........................................................................................113
APÊNDICES ................................................................................................. 117
ANEXO ......................................................................................................... 119
11
INTRODUÇÃO
Esta dissertação, do campo dos estudos dialógicos, é consequência de
uma pesquisa, que se dedicou a investigar os registros das marcas dos
elementos das formas composicionais exclusivas dos tipos de gêneros do
discurso de enunciados semio-discursivos no aplicativo Twitter. Na prática, ao
mesmo tempo em que se propos operar registros, ela se compromete com
análises sobre o diálogo social da comunicação midiática no ambiente virtual, em
trânsito nos complexos circuitos digitais conectados, através do qual circulam
signos, produções discursivas e discursos, e que são responsáveis, hoje, pelas
interações sociais nos suportes digitais conectados.
Na singularidade das condições de produção enunciativa desta pesquisa
foi feito um recorte no estatuto da produção de gêneros discursivos, na exata
medida da estrutura composicional do enunciado do jornalismo cotidiano quando
é articulado entre suportes digitais da mídia atual; objetivando privilegiar a forma
enunciativa (BAKHTIN, 1998) de processos de interações discursivas nos quais
os sujeitos do discurso constroem diálogos quando operam expressões
discursivas por meio de mecanismos técnicos mais dinâmicos e auto organizados
de comunicação.
Na condição de sujeito pesquisador, procuramos trabalhar um objeto do
discurso1 em referência à forma dos enunciados, que permitisse abranger as
questões gerais dos gêneros de discursos abordadas por Bakhtin (BAKHTIN M. ,
2003), tecendo fios discursivos entre teorias e conceitos que já admitem a
interrelação e reciprocidade das modalidades linguísticas de produção em série e
a circulação de grande massa de dados e de informação na rede mundial de
computadores; sobretudo, na perspectiva da dinâmica da velocidade de difusão
da informação em circuitos conectados. Espelhamos a dimensão analítica
discursiva dialógica com as pesquisas de Zozzoli2, principalmente aquelas
1
Expressão emprestada de Moirand que, segundo a autora, é uma categoria de análise própria dos estudos
sobre a mídia que reúne em torno de palavras as ocasiões e reformulações tais quais se colocam ao longo
do texto; funcionam como entidades atualizadas por expressões susceptíveis a reformulações e que são
enriquecidas ou simplificadas ao longo do discurso ou das interações.
2
Financiada pela Capes/Fapeal, a pesquisa é desenvolvida no grupo de pesquisa interdisciplinar e
interinstitucional Ensino e aprendizagem de línguas, com sede na FALE/UFAL, coordenado pela profª Rita
Maria Diniz Zozzoli. Abrigado na LA, o grupo excepcionalmente empreende, entre outras, pesquisas sobre a
12
referentes as análises que envolvem “dados móveis, até mesmos fugazes,
transitórios, e híbridos do ponto de vista da oralidade/escrita, verbal/visual”
(ZOZZOLI, 2013, p. 1).
Trabalhamos ainda com Zozzoli (2013) os impactos da articulação de
gêneros entre suportes3 midiatizados (ou não). Para análises discursivas
dialógicas no momento discursivo atual, a perspectiva analítica discursiva da
autora
compreende
duas
importantes
características
do
dialogismo
4
contemporâneo: o caráter hiperestrutural do enunciado; e as condições materiais
de circulação de signos ideológicos, que compreende produções discursivas e
discursos, e juntamos a esse conjunto as marcas da “mobilidade e rapidez de sua
circulação no mundo atual” (LEVY, 2011). No jornalismo, com frequência essas
características são observadas nas etapas de sucessivas edições e na articulação
entre suportes.
Neste cenário interativo contemporâneo, uma das práticas dialógicas dos
modos de sociabilização está ambientada em dimensões de comunicação
dominadas pela indústria da informação em massa. Neste ambiente, o
acontecimento cotidiano destacado e reformulado em notícia se transforma em
produto a venda. Para abastecer a totalidade desse diálogo social cotidiano a
indústria da informação faz relatos dos temas5 que são retirados das experiências
de vida do corpo social (BAKHHTIN, 2001), de seu repertório do cotidiano previsto
(BAKHTIN, 1998), que são materializados por meio de massas semióticas. Isso
faz do jornalismo um dos protagonistas da dinâmica dialógica entre os grupos
sociais, na atualidade.
Nas novas modalidades textuais em circulação na internet foi possível
observar consolidarem jogos de sentidos que só existem na relação radical da
articulação de gêneros discursivos e a articulação de suportes em torno de um mesmo tema, numa
perspectiva linguístico-discursiva dialógica, BAKHTIN; CÍRCULO BAKHTIN/VOLOCHINOV e autores
correlatos. (N.A.)
3
Optou-se por usar o termo suporte para reduzir a noção a um nível puramente físico, material e que dá uma
conotação estática ao fenômeno observado.
4
Refere-se às novas modalidades de textos que permitem outras maneiras de ler e compreender o
enunciado. LEVY (O que é virtual?, 2011) relata textos potenciais que se realizam sob o efeito
hipertextualizado da interação com um usuário. Trata-se de um fenômeno do processo cognitivo humano
junto à máquina e que cria dispositivos hipertextuais, alimentando uma espécie de objetivação e de
exteriorização dos processos de leitura.
5
Em Bakhtin (1998), tema é uma imagem da linguagem, orientada e determinada dentro da esfera
extraliterária da vida e da ideologia do cotidiano (p 139).
13
interatividade em rede, através de massas semio-enunciativas que são
elaboradas para atender a um núcleo linguístico homogêneo de resistência de
uma linguagem de caráter mais flexível.
Agora, as unidades enunciativas
concretas e reais fazem parte de um tipo de diálogo social à distância, e nos
novos modos de sociabilização atendem interlocutores de um auditório social que
não compartilham a mesma dimensão de espaço/tempo (BAKHTIN M. , 2002;
BAKHTIN M. , 2003).
No primeiro capítulo deste trabalho investigativo recorremos às teorias
conceituais correlatas aos estudos do dialogismo, procurando estabelecer um
principio epistemológico entre o tema social da pesquisa com os princípios
fundamentais das análises discursivas dialógicas, com ênfase no encadeamento
dessas estruturas enunciativas discursivas ao “complexo problema da relação de
reciprocidade entre linguagem e ideologia” (BAKHTIN M. , 2003). Procuramos
conciliar ao processo histórico das formas do enunciado virtual a perspectiva das
interações dialógicas materiais, que os enunciados do jornalismo cotidiano faz
circular na intrincada rede de circuitos conectados. Esses enunciados recebem,
aqui, o tratamento plurilinguístico dado por Bakhtin (2002), dispensado aos casos
específicos aos gêneros do discurso.
Por se tratar de análises de discurso dialógicas, é imprescindível enfatizar
que nas atuais interações discursivas o diálogo envolve pessoas (sujeitos do
discurso) e objetos (os suportes digitais) conectados, que simulam experimentar,
como já foi dito, o diálogo à distância. Nesse contexto discursivo que diz respeito
à relação da linguagem com os movimentos das forças da língua, recortamos um
objeto do discurso, para entender a maneira como esta forma discursiva define
sua identidade.
No contexto teórico conceitual de certas teorias de análise do discurso
atuais, como por exemplo, as análises de Moirand (2006), a identidade discursiva
do jornalismo se caracteriza no jogo das sucessivas edições e publicações, nas
ocasiões que o enunciado se transforma em um novo enunciado. No campo dos
estudos da linguagem, esse movimento de articulação discursiva, que o
jornalismo se apropria, está diretamente associado ao modo de agir do sujeito do
discurso, as condições de produção econômicas, as pressões ideológicas e a
maneira como ele leva adiante suas atividades de comunicação.
14
Com base nessas premissas procuramos perceber na intenção discursiva
no Twitter a maneira como o sujeito lida com a língua, numa situação de uso
social, e as soluções linguísticas que ele encontra, quando articula o enunciado
entre mídias digitais. Nessa dimensão, a pesquisa buscou definir os traços de
certos aspectos do dialogismo em jogo, para isso, se propos observar as práticas
cotidianas
do
sujeito
do
discurso,
na
aventura
das
novas
estruturas
composicionais de enunciado que está atualmente em uso.
Por se encontrar comprometida com a materialidade histórica e dialética do
fenômeno discursivo analisado, procuramos superar as concepções simplificadas
estilísticas sobre o discurso nos aspectos referentes à forma hiperestruturada e
hipertextual dos enunciados em rede. Em seu lugar, o enunciado recebeu
tratamento de unidade real da comunicação discursiva, que reconhece o papel
ativo do outro. Nesse contexto, nos remetemos ainda ao lugar material e
historicamente definido do interlocutor, que o sujeito da pesquisa ocupou naquele
momento na função de agente ativo do diálogo (mediato e imediato), no processo
de comunicação discursiva do jornalismo, em rede6.
Trabalhamos com um sujeito do discurso saturado de ideologias e
envolvido com a materialidade histórica dialética do seu tempo, cujas práticas e
os valores humanos enfrentam permanentes desafios frente às atitudes
linguageiras de comunicação nas mídias digitais conectadas. Para isso,
buscamos explicações nos conceitos que Lévy (2000; 2011) defende sobre a
ciber cultura e a virtualização, estendendo-se até sua definição de sujeito do
discurso acostumado a desenvolver interações dialogais a partir de um conjunto
de técnicas materiais de linguagem. Isso, para o sociólogo, envolve as práticas e
atitudes (LÉVY 2000) de atos comunicacionais da cibernética. Segundo o próprio
Lévy, a prática é interativa e se dá através de suportes midiáticos em circuitos
conectados; como o passar do tempo isso interferiu e afetou o modo de pensar e
agir dos sujeitos. Por sua vez, são as atitudes que respondem, até hoje, pelas
significativas transformações dos atos linguageiros.
6
Particularmente, o processo analítico desta pesquisa é desprovido da exauribilidade semântico-objetal do
tema do enunciado prescrito em Bakhtin (2003). É que, no Jornalismo, as sucessivas publicações são de
natureza puramente factual, e elas não atendem a relativa conclusibilidade semelhante às condições que
permitem o mínimo de acabamento encontrado em trabalhos científicos ou nos de alguns campos dos
gêneros secundários.
15
Na essência metafísica dessas atitudes discursiva contemporâneas,
Bauman (2004) sinaliza para o homo consumens, cibernético e pós-moderno, que
vive numa sociedade líquida e assume o papel de sujeito líquido. Sob a condição
líquida, ele age em simulações discursivas nos circuitos conectados, comandando
um diálogo baseado em técnicas materiais. Através do discurso, o homo
consumens coisifica e consome tudo a sua volta, concebendo e gerando
linguagens no ventre das incertezas e das instabilidades ideológicas que,
atualmente, impregnam “o comportamento pós-moderno” (BAUMAN, 1998).
Num dos traços de sociabilidade do homo consumens de Bauman, este
sujeito se acostumou também a interagir a partir de um lugar virtual em tempo
real, ou não. No aspecto da discursividade líquida, para o próprio autor, ele é um
sujeito que dialoga indiferente às consequências e os efeitos colaterais resultados
do antagonismo ideológico em jogo. Atraído pelo desejo7 da interação conectada,
o sujeito de Bauman se sobrepõe à ética e a ideologia, eternas fontes
estimuladoras do diálogo, que os faz mover-se através de simulações discursivas.
Por se tratar do jornalismo cotidiano, uma indústria de comunicação em
massa, por isso nos consubstanciamos de teorias que configuraram outras
noções do grande diálogo social (BAKHTIN, 2003), de maneira que fosse possível
representar nos processos de linguagem do discurso virtual novos processos de
discursividade; sobretudo, aquelas que se realizam nos enunciados discursivos
informativos, dentro e fora deles também.
A base em alguns aspectos do dialogismo (do chamado círculo
BAKHTIN/VOLOCHINOV e autores correlatos) foi fundamental para constituir um
conjunto de indicativos conceituais para entender como a alteridade estimulada
pelo desejo de interagir a distância impulsiona interrelações discursivas no sujeito
do discurso contemporâneo, que dialoga se apropriando e re/produzindo
discursos saturados de ideologias.
A respeito dos estudos sobre a dimensão do tempo e do espaço nas
interações
comunicacionais
aos
quais
se
refere
Bakhtin
(2003)
se
complementaram, aqui, com certos conceitos de Lévy (2011) sobre o mesmo
7
Para Bauman (2004), na pós-modernidade, o “desejo” se traduz na vontade de consumir que a alteridade
liga à complexa condição de absorver/devorar/ingerir e digerir – e isto quer dizer aniquilar também. O autor
afirma que desejo “é uma compulsão a preencher...” (ibidem 2004, p. 23).
16
tema e nos orientam dizer que, no meio ambiente social interativo conectado, o
sujeito do discurso atua à distância manipulando os elementos sociointeracionais
materiais, sob o efeito da sua a materialidade histórica.
O homo consumens (BAUMAN, 2004), pelo discurso, é um sujeito que se
comunica consumido por suas próprias incertezas; essa insegurança o faz apagar
e refazer a história sempre que necessário. Essa é uma atitude de interação
restrita ao diálogo que se materializa sob a pressão que a hegemonia ideológica e
as condições de produção econômicas exercem sobre o sujeito do discurso
líquido. Hoje, o pensamento verbal ideológico se transformou na arena de
confrontos discursivos, um lugar em que o sujeito do discurso deixa marcas da
contemporaneidade nos processos discursivos em que atua.
Os estudos teóricos desta pesquisa, portanto, buscaram compreender nos
pensamentos da sociologia contemporânea (BAUMAN, 2004; 1998) (LÉVY P. ,
2011; LÉVY P. , 2000) os motivos que levam o sujeito pós-moderno de discurso
líquido se comunicar na confluência entre a razão moderna e o consumo.
Encontramos respostas na intercessão das relações sociais e ideológicas em
condições dialéticas das produções discursivas (a partir de agora passaremos a
tratar por produções semio-enunciativas). Uma “crise de paradigmas” que faz do
discurso ideológico também um conflitos de classe. Segundo Bauman (1998), o
discurso ideológico é uma espiral de conflitos, resistência e adaptações às novas
formas linguageiras. Em reais condições materiais e históricas, o discurso
ideológico é um hábito permanente que faz do sujeito um produtor de discursos,
relativizados pela dinâmica dos temas.
Enunciados ideológicos circulam por ambientes líquidos, interativos e de
relação de consumo, são estruturados para interagir no ambiente virtual e
atraíram para si investigações concentradas também em conceitos sobre
genericidade8 (ADAM e HEIDMANN 2004) das formas enunciativas do gênero do
discurso do jornalismo cotidiano no virtual.
8
Adam e Heidmann (2004) referem-se à genericidade relacionando o gênero do discurso a um conjunto de
categorias no qual os textos podem ser relatados. Segundo os próprios autores, tais relatos possibilitam
compreender a complexidade do impacto do gênero sobre o desenvolvimento do discurso. Mais adiante
voltaremos a aprofundar esse conceito.
17
As Análises do Discurso da escola francesa possuem trabalhos que
relacionam as transformações pelas quais passam os enunciados do jornalismo
nas vezes em que nova materialidade do enunciado é publicada/postada, ou
replicada na mídia. Nesse sentido, nos referenciamos com alguns aspectos das
análises de Moirand (2006), sobretudo aqueles que explicam o comportamento
que revela a materialidade histórica na qual o discurso foi concebido e que dizem
respeito ao modo como o sujeito do discurso se expressa no texto. Essa ação se
constitui de uma interdiscursividade9 existente nas peculiaridades das edições e
sucessivas publicações.
Os conceitos teóricos das análises discursivas de Moirand (2006) sobre o
atual cenário investigativo do jornalismo e as condições discursivas no jornalismo
contemporâneo reforçaram os entendimentos sobre o modo como os enunciados
são articulados entre suportes, e quais são as consequências das sucessivas
publicações/postagens, numa dada materialidade histórica. Esperamos com essa
estratégia, obter um objeto de discurso ativo agente verificador das mudanças
que ocorrem na dinâmica da articulação de enunciados entre suportes digitais.
A pesquisa, portanto, propõe ao objeto do discurso trafegar por análises de
enunciados que recortados nos processos de escrituração e transformação de
massas semióticas compostas para um site de notícia do jornalismo da mídia
cotidiana, e depois foram articuladas para interagir com seguidores de um perfil
do aplicativo Twitter. Para nós, é esse tipo de enunciado que responde por uma
significativa produção diária de um grande volume de massa semiótica, colocada
em circulação nas e pelas mídias sociais. Nesta pesquisa, providenciamos o
recorte de enunciados numa dimensão dialógica discursiva dada, em tempo real,
isto é, na medida em que foram inscritos, hiperestruturados e postados na Internet
pelo sujeito pesquisado. Esse detalhe o configurou como objeto para as nossas
análises discursivas.
9
Moirand (2006) se refere ao jornalismo como o modo informativo cotidiano. A autora trabalha suas análises
na perspectiva de uma heterogeneidade que se desenrola em três movimentos: um semiótico, um textual e
um enunciativo. Nesse sentido, explica Moirand, essa heterogeneidade, na função de princípios fundamentais
do diálogo social, se encontra no trânsito de um enunciado para outro, e nos modos discursivos a outros;
cujas evidências se encontram na materialidade textual (ibidem 2006, p. 5).
18
Para abordar essas questões com mais propriedade, trouxemos para o
contexto teórico desta pesquisa as questões gerais do uso da linguagem na
contemporaneidade (CHARTIER, 2002) (Zozzoli, 2016) (2015), que se orientam
por conceitos e direcionamentos de análise que trabalham com os fundamentos
do dialogismo (BAKHTIN 1998, 2003). E, na estranheza de um olhar
interpretativista e dialético, elaboramos perguntas exploratórias da totalidade da
problemática em jogo, pretendendo obter respostas resultadas da aplicação de
mecanismos de análises inspirados nos conceitos teóricos do dialogismo, que
foram lançadas sobre uma massa investigativa precisa e concreta, na
consequência de interpretações singulares do sujeito pesquisador.
A precisão nos recortes, nestes casos, é fundamental, sobretudo, em se
tratando de uma atividade que produz grande volume diário de enunciados. Por
isso, para constituir um corpus de referência (MOIRAND, 2006) das expressões
semio-discursivas saturadas de ideologia, selecionamos a massa investigativa de
enunciados concretos e reais publicados em circuitos conectados no diálogo do
Twitter, privilegiando aqueles que passaram por processos de transformações
enunciativas; com a intenção de atender um auditório social que está diretamente
envolvido com processos dialógicos em rede.
Certos aspectos dos princípios do dialogismo dessa investigação remetem
às pesquisas socioideológicas, embora estejamos conscientes dos riscos de
requer análises de atitudes e práticas linguageiras sociointeracionais pouco
exploradas pela academia. Contudo, outros aspectos desses conceitos nos
indicam que este campo de estudo se descreve na atualidade um ambiente de
pesquisa promissor, sobretudo, quando se ousa expor a intrincada relação
sujeito/discurso, sujeito/sujeito e discurso/sujeito.
Esta é uma intrincada relação da questão geral dos gêneros do discurso
(BAKHTIN M. , 2003) que vamos abordar, a partir de um caso em que a forma do
gênero (ADAM, Jean Michel; HEIDMANN, Ute, 2004) é potencializada no uso da
linguagem de textualidade eletrônica10 (CHARTIER, 2002). E a partir das diversas
10
Segundo CHARTIER (2002), a textualidade eletrônica marca a descontinuidade da leitura em tela e
promove uma revolução da percepção das entidades textuais e das estruturas e formas mais fundamentais
dos suportes da cultura escrita (ibidem 2002, p 24). No estreitamento do uso de simbologias em relação à
textualidade, propõe nova técnica de difusão da escrita, estabelecendo nova relação com os textos, impondo
nova forma de inscrição.
19
possibilidades discursivas do gênero, nos apoiamos na dinâmica discursiva
Zozzoli (2015) para analisar as consequências dos intercruzamentos e
articulações entre vetores, gêneros e modalidades.
No segundo capitulo, sob o guarda-chuva da pesquisa qualitativa,
apresentamos a metodologia aplicada que entra no mérito de pesquisa
estabelecendo uma conduta que combinou características etnográficas e
colaborativas. Em torno do enfoque histórico-materialista desse estudo, no campo
aplicado dos estudos da linguagem escrita, esse posicionamento investigativo
ajudou
a
definir
com
mais
tranquilidade
instrumentos
de
pesquisa,
armazenamento de dados e a fazer abordagens precisas nas etapas não
linguísticas de análises, a partir de um corpus de referência preciso e limitado.
Por se tratar de abordagens de análises discursivas em Linguística
Aplicada
contemporânea,
que
encaminham
às
questões
de
cunho
“interpretativista” (MOITA LOPES, 1996, in MOITA LOPES, 2006), acrescentamos
aos princípios metodológicos etnográficos e colaborativos uma configuração
mestiça, híbrida e (in)disciplinar de pesquisa11, para trabalhar com temas que se
encontram na gênese de novas práticas discursivas dialógicas. Assim, o conjunto
metodológico traz para o centro do debate acadêmico um tema social retirado do
plurilinguismo dialógico do ambiente dialógico discursivo da atualidade.
Em ocasiões de experimentações metodológicas, no âmbito teóricometodológico, foi fundamental desenvolver um protocolo singular, ajustado aos
aspectos relacionados a esse estudo. Nesta parte do trabalho, explicamos como
esse experimento teórico-metodológico foi constituído e como ele deu liberdade
de estabelecer um ponto de intercessão entre a academia e o campo pesquisado,
equivalendo à situação verificada aos pressupostos nos fundamentos teóricos do
dialogismo, numa interface direta com os fundamentos da teoria discursiva. Para
constatar, nas palavras de Bakhtin (2002), que toda e qualquer comunicação é
compreendida na linguagem.
No terceiro capítulo, o trabalho acadêmico se dedica em fazer análises a
partir da leitura dos registos que foram feitos de uma narrativa sobre a
comunicação na vida contemporânea. Essa parte se constitui em uma releitura da
prática do sujeito pesquisado, a partir das abordagens referentes aos elementos
11
Conceitos que serão mais aprofundados no segundo capítulo dessa dissertação.
20
de metodologia que já foram propostos, e que as vivências dos momentos
presenciais proporcionaram.
Para isso, o capítulo foi dividido em duas partes: na primeira, construímos
uma narrativa com características etnográficas que descrever as práticas
discursivas do sujeito pesquisado a partir das experiências vividas durante as
ações colaborativas de construções do conhecimento – adotamos esse método,
porque ele permite que os dados sejam selecionados com a colaboração efetiva
do outro, assim como foi essencial à participação do outro nas deliberações sobre
os destinos da investigação e os encaminhamentos dados que solucionam os
problemas. Na segunda parte e se concentram a massa das análises feitas em
cima das atitudes discursivas do sujeito pesquisado. Nesta fase foi considerado o
nível de suas construções discursivas, os comprometimentos que envolveram
aspectos sociais, históricos e ideológicos, determinados pela pressão da
hegemonia ideológica e econômica.
Finalizamos esta introdução, enfatizando que nos dedicamos a pesquisar
um sujeito do discurso, desde seus envolvimentos com procedimentos
discursivos, até os vínculos de suas atitudes enunciativas com os princípios da
comunicação de transmissão de interesse prático (BAKHTIN, 1998). Para analisar
como, do lugar em que se encontra, sob os efeitos da sua atividade laboral
cotidiana, ele desenvolve atitudes singulares ao seu discurso, nos enunciados de
variante híbrida, que transparecem as diferentes estruturas enunciativas com as
quais o sujeito dá forma e sentidos ao interior do discurso, de acordo com os
interesses do diálogo em jogo.
Concluímos nossas apresentações pressupondo ter encontrado um ponto
de intersecção entre a academia e o uso social da linguagem extramuros da
própria academia. Consideramos ter alcançado o objetivo de trazer para o centro
do debate acadêmico um tema social sobre o uso social da linguagem, assumido
um posicionamento singular no campo das pesquisas atuais, tanto nas áreas dos
Estudos da Linguagem, quanto de Comunicação Social. Encerra-se essa etapa
com o desejo de que o trabalho a seguir contribua para o conhecimento das
práticas discursivas e comunicacionais em contextos diferenciados da sala de
aula.
21
Seção 1.
1. Reflexões teóricas norteadoras
Este estudo aborda as marcas linguístico-discursivas ocasionadas nas
transferências entre os gêneros discursivos da atividade do jornalismo cotidiano,
com a intenção de entender, para analisar, as ações do sujeito que, na ação
cotidiana discursiva, se utiliza de elementos linguísticos e translinguístico 12, com o
objetivo de articular enunciados entre suportes digitais conectados em rede.
Procura contemplar análises referentes às relações da língua com a vida, e com
as problemáticas que envolvem a comunicação de transmissão de interesse
prático13 (BAKHTIN, 1998), condições que revelam quão diferenciadas e elevadas
é a vida social do sujeito do discurso que se encontra condicionado a uma dada
situação e um dado grupo social.
Todo o entendimento teórico que fundamenta essa pesquisa encontra-se
nos princípios fundamentais do dialogismo de Bakhtin, resvalando no chamado
Círculo Bakhtin/Volochinov e em autores correlatos que, em suas próprias
pesquisas, autorizam propostas analítico-discursivas das formas de comunicação
cotidiana, sobretudo, aquelas submissas e inteiramente condicionadas à
historicidade em jogo.
Sobre a base interpretativista da análise do discurso em Linguística
Aplicada Contemporânea (doravante L.A. contemporânea), procurou-se constituir
interações francas com outras áreas do conhecimento humano, sobretudo,
aquelas que contribuem para o esclarecimento da vida social através do discurso.
Portanto, promovendo processos transdisciplinares de produção do conhecimento
(MOITA LOPES, 1998, in MOITA LOPES, 2006 p. 97), assumindo uma ativa
posição responsiva (BAKHTIN, 2003, p. 271) frente à vida social contemporânea,
essa pesquisa se prepara para dizer algo sobre o comportamento social interativo
da atividade do jornalismo de hoje.
12
Bakhtin alega que além da forma estruturalista e sistematizada da Linguística é possível articular a língua
com a historia, o sujeito e a prática social concreta nas relações dialógicas. Para ele, linguística e
translinguística são elementos complementares de uma análise discursiva.
13
Em Bakhtin (1998), “o sujeito que fala e suas palavras, no discurso cotidiano, atuam como objeto de
transmissão de caráter prático” (p. 141). Este conceito adere à ideia de que no modo cotidiano, os sujeitos
reafirmam suas intenções discursivas através de mecanismos enunciativos fazendo uso de elementos
linguísticos de representação.
22
Isto quer dizer que, aqui, todo o entendimento teórico se consorcia à
tendência de hibridização14 e do pensamento mestiço15 das pesquisas em L.A.
contemporânea, constituindo um campo do conhecimento restruturado por
empréstimos com outras disciplinas. Assumimos esse posicionamento por
entender que, nesta pesquisa, só é possível alcançar uma totalidade relativa de
conhecimento trazendo para o debate outras áreas do conhecimento e
investigação.
Privilegiamos para a pesquisa perspectivas de modalidades linguísticas
discursivas que trabalham com a produção de enunciados em série, com a
grande massa de dados em circulação na dinâmica da velocidade e difusão da
informação em circuitos conectados, para relatar como o sujeito pesquisado
transporta enunciados constituídos em um site de notícias para o Twitter. Essa é
uma tendência de abordagem analítico discursiva que, sob os efeitos da
comunicação contemporânea, providencia interfaces teóricas imprescindíveis às
analises de enunciados, dos gêneros discursivos e do discurso, hoje.
No campo do conhecimento da língua, sob os princípios do círculo
Bakhtin/Volochinov, defendemos a ideia de que as análises atuais devem levar
em consideração os modos de pensar do sujeito do discurso, sua história e seu
envolvimento com práticas interativas e sociais; esse posicionamento faz com que
o pesquisador trate a questão do gênero, a partir do seu potencial de
genericidade16. Uma qualificadora do gênero que, segundo Adam e Heidmann
(2004), se verifica na ordem de “desenvolvimento” do discurso e da
“interpretação” de sentidos (ADAM e HEIDMANN, 2004), e que se efetivam na
complexidade de sua dinâmica enunciativa.
14
No campo hibrido, o conhecimento é reestruturado cada vez mais tomando de empréstimos outras
disciplinas, com o propósito de falar da complexidade da vida contemporânea, operando “dentro de uma
visão de construção de conhecimento que tente compreender a questão de pesquisa na perspectivas de
varias áreas do conhecimento, com a finalidade de interroga-las” (MOITA LOPES, 2006, p. 98).
15
O pensamento mestiço (MOITA LOPES, 2006) desaprende hábitos intelectuais do passado e seus modos
automatizados de pensar, típicos da Linguística tradicional.
16
Aprofundando mais esse conceito, além de tratar a problemática do gênero como um conjunto de
categorias nas quais os textos podem ser relatados (submetidos aos fundamentos de causa), Adam e
Heidmann (2004) acrescentam ainda que para compreender a complexidade do impacto deles sobre o
desenvolvimento do discurso só um estudo genético poderá descrevê-lo com precisão. Isto é, observar e
analisar a escrita reescrita, às vezes pelo comentário do autor, que, em certas ocasiões, faz uma palavra ser
submetida a um grande número de mudanças.
23
Nessa dinâmica enunciativa, sob os efeitos da linguagem e do discurso, de
escrita e reescrita da produção em série do jornalismo cotidiano, os conteúdos
dos temas chamam a atenção para as alterações formais e ideológicas que todo
enunciado sofre no momento que se reformula a partir de uma mesma unidade
discursiva (MOIRAND, 2006) e/ou entre suportes midiáticos (ZOZZOLI, 2015).
Para efeito dessa investigação, torna-se relevante, aqui, se ocupar com
abordagens sobre o funcionamento da palavra de outrem referentes aos
constituintes discursivos do chamado círculo BAKHTIN/VOLOCHINOV (2004).
Portanto, nesse cenário teórico, é imprescindível referenciar a objetivação desse
estudo com o que Bakhtin (2003) reporta aos estudos de novos fenômenos no
campo da linguagem e do discurso das sucessivas publicações de natureza
puramente factual.
Análises de transposição de enunciados, através da articulação entre
suportes digitais, ganham nova camada teórica nas contribuições de Zozzoli
(2012), que se dedicam às pesquisas na mídia, sobretudo, aquelas em que a
autora trabalha com a articulação de gêneros discursivos entre suportes, em
dimensões de espaço e tempo diferentes. Nesses estudos, ela classifica o
fenômeno analisado no plano linguístico, discursivo, temático; e inclui ainda, no
contexto analítico, os gêneros discursivos, os vetores (suportes midiáticos) e os
entornos. Fazer o recorte e analisar expressões semio-enunciativas ideológicas
nas perspectivas de estudo que permitam considerar dados móveis, até mesmos
fugazes, transitórios, e híbridos, permitiu que a pesquisadora acrescentasse ainda
aos objetos de pesquisa dialógica situados em contextos midiáticos tratamento de
visão complexa 17 (ZOZZOLI 2015).
Essas articulações teórico-metodológicas se associam as tendências
analítico-discursiva, tem em seus postulados carrega evidências do caráter
heterogêneo do discurso e revelam a existência de uma exterioridade marcada
pela presença de uma intensa atividade responsiva ativa (BAKHTIN, 2003).
Trabalhado com essa visão, o enunciado se reveste de tudo aquilo que pode ser
ideologicamente significativo e expressivo, a partir do interior de uma dada
unidade discursiva.
17
Na visão complexa, os dados do discurso são analisados na categoria mista de base “enunciadoacontecimento-tema” (ZOZZOLI, 2015, p. 2).
24
Demos aos mecanismos analítico-discursivos da atividade do jornalismo as
convergências teóricas dos princípios fundamentais dos gêneros discursivos de
Bakhtin (2003), sempre se cruzando com outras disciplinas, para depreender
reflexões que se relacionam com as articulações analíticas discursivas dialógicas,
e, a partir delas, inventariar o caráter de discursividade do enunciado em rede,
pela evidência de seu potencial genérico.
Esse universo analítico-discursivo singular, aqui recortado, através do
cruzamento
de
disciplinas
correlatas
às
análises discursivas
dialógicas
contemporâneas, valoriza orientações que sugerem novas visões de análises nas
ocorrências em que se complexificam também as práticas interacionais de uma
comunidade socialmente organizada.
Por isso, é sob o efeito da interatividade das produções discursivas dos
processos dialógicos contemporâneos que nos propomos fazer análises da
comunicação na web, a partir do elevado processo de hibridação do discurso, que
compreende homem/máquina/linguagens. Essa é uma experiência de um meio
ambiente interativo técnico situado num intrincado rizoma de inter-relações
sociais, de características técnicas (hiper)estruturadas da leitura, que no ambiente
digital, circulam nos suportes midiáticos, submetidas aos interesses imediatos de
sujeitos discursivos.
A hiper(estrutura) do diálogo em rede ligada “à dialética do possível e do
real” (LÉVY, 2011) reúne grupos reais, organizando sujeitos do discurso em
conformidade e ao derredor destes em condições de um convívio cultural
complexo
e
relativamente
desenvolvido
e
organizado.
No
âmbito
das
especificações de Lévy, se comunicar a partir da leitura (hiper)estruturada em tela
é o marco da inseparabilidade do humano da linguagem e de seu ambiente
mecânico. Segundo o autor, no meio e ambiente interativo tecnológico o sujeito
estabelece ligação com e através dos signos e as imagens “por meio dos quais
ele atribui sentido a vida” (LÉVY 2000, p. 22). No grande diálogo social na web, o
atributo da leitura hiper(estruturada) é fazer desaparecer a massa concreta do
texto impresso tradicional, para se transformar numa matriz de textos potenciais
que se realiza na interação com o leitor.
25
Discursando na web, segundo o próprio Lévy (2000), os sujeitos se
encontram experimentando uma materialidade dialógica impregnada pela
tecnologia e, para eles, se expressar através da máquina está na essência das
razões de sua existência. Uma existência metafísica, personificada através de
entidades virtuais, que lhes dá a falsa sensação de estarem escondidos por trás
das máquinas. Tem-se a sensação de estarem sós, interagindo de forma isolada;
mas, por outro lado, se conforma em saber que estão fisicamente ligados por fios
conectados ao plano virtual18. Estamos diante de um contexto discursivo
tecnológico, onde o diálogo se materializa através de imagens (fixas ou em
movimento),
de
palavras
e
sons,
constituindo
anúncios
que
circulam
intermitentemente nos circuitos de comunicação.
Podemos retirar disso que o enunciado, além de um processo linguageiro
relacional verbal/escrito, agora, se materializa nos sistemas e mecanismos de
controle automático entre sujeito e máquina.
Essa dinâmica tecnológica
entranha-se na essência humana chegando até a interferir na relação social entre
entidades materiais e virtuais e entre ideias e representações. Na ordem do
diálogo em jogo, tomando como referência a perspectiva do chamado círculo
Bakhtin/Volochinov (2004), o signo ideológico, aqui, também, encontra-se
indissociável de determinados gêneros, dos tipos de acabamento e, sobretudo, da
tendência que o signo tem de potencializar o valor do sentido de seu conteúdo
apelando para a ativa atitude responsiva (BAKHTIN, 2003).
No que diz respeito ao dialogismo bakhtiniano, em consonância com as
esferas discursivas do cotidiano, somam-se a esse entendimento nas diferentes
funções ou situações corriqueiras, nas diferentes posições ideológicas, sociais, ou
de reciprocidade, os ajustamentos ideológicos numa diversidade de enunciados e
de gêneros discursivos arquitetados, constituídos para serem postados. Uma
característica fundamental para em consonância com as esferas discursivas do
cotidiano, os fenômenos relacionados à atividade do jornalismo desta pesquisa
sejam explicados pelos mesmos fatores sociais, ideológicos e econômicos; o
18
De acordo com Lévy (2011), virtual consiste em dois planos: o par potencial-real e o par potencial-atual.
Juntos formam um conjunto que dá a digitalização e as novas formas de apresentação do texto outras
maneiras de ler e escrever. Além disso, potencializa a qualidade do leitor, que agora precisa invocar um
comando à máquina para a realização parcial do enunciado; consiste num novo universo de criação e de
leitura dos signos.
26
mesmo conjunto de ideias que determinem “a vida concreta de um dado indivíduo
nas condições do meio social“ (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004, p. 48) em que ele
age como sujeito do discurso.
Isto conectado aos princípios fundamentais do dialogismo e à forma do
enunciado (BAKHTIN, 2003) revelou importantes aspectos desse organismo
discursivo no jogo do diálogo social na web. Assim, como na síntese dos
fundamentos bakhtinianos, todo enunciado que se dirige ao outro implica um
movimento interacional e um objetivo discursivo. Mas, na situação similar da web,
é sua estrutura composicional que dá forma ao conteúdo e ao gênero
selecionado. Em condições de análise, esse enunciado reproduz a cultura local,
revelada na relativa autonomia individual do sujeito do discurso (ZOZZOLI, 2013).
Em se tratando do jornalismo, postula-se, portanto, que no discurso
midiatizado a realidade concreta e imediata é fato determinante da produção
discursiva. E os ajustamentos referentes às tendências ideológicas e a dominação
econômica e social são decisivos na materialidade histórica discursiva do sujeito
do discurso. Uma situação que interfere no valor do sentido no interior do
enunciado e na constituição de sentidos, sem os quais não haveria discursos
ideológicos.
Bakhtin (2003) sinaliza que o lugar da materialidade histórica do sujeito do
discurso é o enunciado; mas que há, em todas as situações discursivas, a
intenção do sujeito em tornar seu discurso inteligível. Numa situação prática de
análises discursivas dialógicas, isso é verificado de duas maneiras: em uma delas
o pesquisador observa a trajetória cronológica dos gêneros discursivos para
configurar possíveis transformações; e na outra, fazendo o registro das mudanças
que afetam a vida social e que se refletem nas variações nos gêneros de forma
imediata, flexível e precisa. Uma é imprescindível para a solução da outra.
No entendimento da relativa autonomia que o sujeito dá ao discurso, na
situação imediata e mediata do diálogo, ele planeja e executa formas de gêneros,
selecionando formas e signos ideológicos de um estoque social que a
comunidade em torno organiza. Desse estoque, na aflição da situação discursiva
imediata na web, o sujeito do discurso reacentua os gêneros que, por sua vez, se
prestam a reformulações livres e criadoras, sempre saturadas de ideologias e em
conformidade com os preceitos normativos que lhe são dados.
27
Diz Bakhtin:
“Quando construímos nosso discurso, sempre trazemos de
antemão o todo da nossa enunciação, na forma tanto de um
determinado esquema de gênero quanto de projeto individual de
discurso. Não enfiamos palavras, não vamos de uma palavra para
outra, mas é como se completássemos com as devidas palavras a
totalidade” (BAKHTIN, 2003, p. 291/292).
Entendemos que Bakhtin sugere que o estilo individual do enunciado em
condições imediatas pode reproduzir a cultura, na materialidade de sua relativa
autonomia autoral enquanto sujeito do discurso. Porquanto, é no potencial de
pressuposição de sentidos dos enunciados que o sujeito deixa transparecer
também o aspecto expressivo pessoal, que fala da sua historia e de seu lugar.
No que diz respeito ao tema social desta pesquisa, que se relaciona com
as análises discursivas dialógicas (BAKHTIN, 2003), na atividade do jornalismo
cotidiano entende-se que é pelos elementos semânticos-objetais (idem 2003) em
que definem a relação valorativa do sujeito com o estilo e a composição que
aparece na totalidade enunciativa, como “parte do plano do enunciado”
(BAKHTIN, 2003, p. 266) da ação comunicativa do sujeito do discurso, que, por
sua vez, liga esses elementos as ocorrências dos tipos de gêneros e aos seus
vínculos composicionais.
Assim como em outras situações discursivas, no jornalismo, o projeto
concreto individual exprime certas posições ideológicas do sujeito do discurso
através dos tipos genéricos que ele seleciona de um estoque social. Nesta
perspectiva, é possível observar o valor do conteúdo discursivo no momento
abstrato do projeto concreto e pleno do discurso, na inteligibilidade do projeto
concreto individual e pleno do discurso acabado, que o estilo individual dá a
conclusibilidade específica ao discurso19.
A produção discursiva recortada nesta pesquisa intercepta essa nova
experiência da forma valorativa do discurso, condicionando ao estilo individual a
19
É clara a intenção da mídia cotidiana de tentar interceder em todos os níveis do enunciado, com a intenção
de alimentar um diálogo inacabado com interlocutores potenciais, em condições de interações discursivas
voláteis e aparentemente infinitas (N.A.).
28
uma diversidade de práticas discursivas nas sucessivas publicações de natureza
puramente factual.
Através de Adam e Heidmann (2004) se esclarece que, também em tais
condições de interesse prático, num cenário de natureza comunicativa, para dá
conta do volume de diálogos o sujeito do discurso da mídia cotidiana ajusta,
transforma ou subverte um ou mais tipo de gêneros, e, assim, ele satisfaz sua
vontade de dialogar, reafirmando suas intenções discursivas, fazendo uso de
mecanismos enunciativos e de elementos linguísticos de representação.
Tomado de exemplo essa realidade concreta, é possível encontrar a ação
de genericidade (ADAM e HEIDMANN, 2004) na produção discursiva do
jornalismo cotidiano, se materializando nas vezes em que determinado enunciado
se modifica transparecendo os laços com outro enunciado relacionado. Esse
estudo procurou saber como o sentido do enunciado transformado afetou o
gênero, na totalidade do impacto das formas genéricas sobre o desenvolvimento
da comunicação mediada.
No campo das análises do diálogo midiático do jornalismo cotidiano, na
ligação de um enunciado com outros enunciados restam as inferências precisas
do discurso, marcadas na concretude de sua identidade em relação à língua e a
constituição de sentidos no interior do discurso. Um trabalho de ajustamento nos
termos de um dado código de referência20, onde o enunciado pleno de
saturamentos ideológicos procura alcançar o ponto máximo de inteligibilidade e
aceitação.
Para o dialogismo, o sujeito do discurso é fonte voluntária de dado sentido
ideológico e social imediato do diálogo, atuando como instrumento de
comunicação, que, através de linguagens sociais, representa e traduz, por meio
de signos ideológicos, as palavras de uma língua. Na condição de agente ativo do
ato discursivo, no jornalismo, o sujeito do discurso faz da interação com o
discurso do outro a lei constitutiva de qualquer discurso, seja com “palavras
dialéticas” e/ou “expressões profissionais” (BAKKHTIN 2003, p. 267).
Nesse
modelo
de
produção
mecanizada
de
enunciados
para
a
comunicação de massa, os sentidos são mais facilmente absorvidos, porque se
20
O professor de ética na comunicação, Barros Filho (2003) acrescenta às normas linguísticas as coerções e
ajustamentos de ordem econômicas e da ideologia hegemônica.
29
estruturam em formas semio-enunciativas constituídas a partir da exterioridade
interativa que lhes dão sentidos. Isso faz o discurso no conteúdo informativo do
jornalismo encabeçar a preferência dos sujeitos do diálogo na hora de escolher no
estoque social de signos temas e formas genéricas discursivas para a
interatividade cotidiana no contemporâneo.
Portanto, as expressões enunciativas do modo informativo no jornalismo
cotidiano são capazes de transparecer a ideia do autor, ajustada à materialidade
da intenção semântico-objetal do enunciado. É o que diz Bakhtin nos princípios
das análises discursiva do dialogismo. Para ele, o semântico-objetal das
expressões semio-discursivas desse campo de atividade materializam a
interatividade em conformidade com “a ideia do autor” (BAKHTIN, 2003). Isto quer
dizer que, do ponto de vista dialógico, as expressões semio-discursivas são
instituições orgânicas, que pela exauribilidade do tema e do sentido refletem a
complexidade dos discursos. Nos circuito conectado elas reflexionam as
consequências do intrincado movimento das forças da língua.
Isso faz da atividade de comunicação contemporânea um lugar de
experiências interacionais singulares de leitura e construção de sentidos e de
intenso movimento das forças da língua, na inseparabilidade do diálogo com os
aplicativos mediáticos21 conectados a grande rede mundial de computadores.
Novidades tecnológicas e novos suportes de interação social induzem o sujeito do
discurso a experimentar a sensação de viver outra dinâmica linguageira.
A
pesquisa procurou no ambiente de produção discursiva atual os registros dessas
mudanças na maneira de eles se sociabilizarem atualmente.
Em Lévy (2000), na nova modalidade gráfica virtual, vista de uma janela
digital (a tela eletrônica para leitura) a forma do enunciado enriquece
consideravelmente a leitura e multiplica as ocasiões de produção de sentidos. Na
logica binária que existe por trás da tela eletrônica para leitura sinais alfabéticos
se estruturam e são traduzidos para uma série de códigos informáticos 22. No
21
Programas de informática que ajudam duas ou mais unidades incompatíveis para que se interliguem num
sistema padrão de comunicação, permitindo a transferência de dados entre eles (N.A.).
22
Disponível em: <http://professor.unisinos.br/ltonietto/tsi/ica/LogicaBinaria.pdf>. A lógica binária é a base do
sistema computacional. É um sistema de numeração, no qual as operações são realizadas através de bits,
que organizados formam o sistema digital. Essa combinação formam palavras, imagens e sons digitalizados
e virtuais.
30
interior da máquina; os sinais se transformam em enunciados hipertextualizados 23
que se realizam sob o efeito da interação com links (ou outros códigos de
linguagem).
Ações aparentemente mecânicas e de difícil compreensão fizeram o sujeito
do discurso contemporâneo se adaptar às novas linguagens e às novas situações
de comunicação. É assim que os registros da história evolutiva revelam o quanto
o ser social é capaz de se adaptar às estruturas de comunicação a partir das
necessidades linguageiras imediatas.
Na contemporaneidade, diz Lévy (2000), as práticas e atitudes de
comunicação fizeram o sujeito se adaptar à máquina e a produzir discursos, cujas
especificidades estéticas se complexificaram à medida que as máquinas e esses
fenômenos foram evoluindo. Para dá um toque de normalidade, a experiência das
relações entre a comunicação e a cibernética busca hominizar a tecnologia e toda
a infraestrutura digitalizada, em condições que vão além da nossa capacidade
neurológica de conceber o humano.
Foi pensando em reduzir esse distanciamento cognitivo, que essa pesquisa
procura compreender a complexidade da relação entre o sujeito e o objeto, para
entender em que as condições de produção discursiva de hoje apagam a ideia
moderna de dependência do meio ambiente para dar lugar a sensação de estar
no centro das coisas.
A sociologia na cibernética explica essa sensação, nos relatos de Lévy
(2011), como um fator emocional, onde o ser social da comunicação discursa nos
circuitos conectados procurando visibilidade e laços culturais, mas, de maneira
egoísta. Saturado de diferentes ideologias, nos ensina Lévy, o sujeito do discurso
dialoga através de raciocínios a curto prazo, mas que são ao mesmo tempo
eficazes e analíticos (LÉVY, 2000). Entra em cena a experiência a inteligência
coletiva24, que nada mais é do que o pensamento histórico, datado e situado
(LÉVY, 2011, p. 95), armazenado em rede.
23
Para LÉVY (2011), hipertexto é um texto digital, reconfigurável e fluido, composto de blocos elementares
ligados por links que podem ser explorados em tempo real. A experiência da escrita-leitura coletiva
hipercontextualiza automaticamente e a hipertextualidade, como dispositivo hipertextual constitui objetivação,
exteriorização e virtualização das construções discursivas.
24
LÉVY (2011) explica inteligência coletiva na perspectiva de uma utopia tecnopolítica da parte coletiva da
cognição e da afetividade social (ibidem 2011, p. 95). Ele trata como um conjunto canônico de aptidões
31
A ciber sociologia contemporânea vê na ação discursiva na web modos
transformadores de pensar dos sujeitos conectados, resistindo, pela linguagem, a
subordinação a um conjunto coerções ideológica, econômica e social. Segundo o
próprio Lévy (2011), a conexão faz o sujeito vivenciar novas experiências formais
de sociabilização nas fronteiras da linguagem. Contudo, ressalta o autor, as
pressões sob o efeito contemporâneo faz dele um vivente virtual, abstraído do
modo de ser e existir de sujeito no todo das coerções em rede.
Do ponto de vista analítico discursivo bakhtiniano, os problemas com a
subordinação e a abstração nas analises dialógicas em rede são resolvidos de
duas maneiras: pela evolução histórica da língua – nesse posicionamento,
Bakhtin (1998) admite que a evolução da língua, assim como toda evolução
histórica, se coloca na condição de uma necessidade voluntária e desejada; de
início, tomada por uma necessidade espontânea, sendo aceita até como uma
necessidade involuntária. Isto é, pela nova refração de sentidos dada ao signo
existente, o sujeito desaprende expressões desgastadas pelo tempo, com o
auxílio dos lapsos históricos de memória materiais da dinâmica de sentidos.
A outra maneira seria pela forma. Aqui, Bakhtin se refere à estrutura da
enunciação, tratando-a como elemento que reivindica para si a condição
puramente social (forma e tema). Porque, na palavras de Bakhtin (2003), a
construção composicional faz do ato de fala uma contradição de formas e
conteúdos guardadas as devidas proporções (BAKHTIN, 2003, p. 261). Num
primeiro momento, na ótica de Bakhtin, as aquisições e realizações enunciativas
satisfazem o impulso discursivo nas formas da existência estética da sua
singularidade; e, num segundo momento, diz o autor, elas se complementam
quando assumem um caráter utilitário e quando determinam o quanto
adequadamente se realizou a tarefa da forma e do tema na construção
composicional (BAKHTIN, 1998).
Retomando o conjunto de ideias de Lévy (2000 e 2011), nos novos códigos
de linguagem, nos objetos técnicos, nas produções discursivas atuais, a forma
torna-se concreta, inteira e relativamente acabada pela subjetividade entre a
cognitivas valorizadas e sinergizadas em tempo real que, segundo o sociólogo, diz respeito à distribuição de
parte da cognição e da afetividade social.
32
técnica (os suportes midiáticos eficazes conectados), a cultura (a dinâmica das
representações) e os sujeitos do discurso (as pessoas, seus laços, suas trocas e
suas relações de forças contraditórias). E o diálogo, diz Bakhtin, se materializa na
relação de reciprocidade entre linguagem e ideologia.
Verifica-se que na atividade de comunicação contemporânea, em
consonância com as ideias de Lévy, ocorre um tipo de alteridade própria desse
ambiente, que cruza o leitor e o autor, com o sujeito do discurso que elimina as
fronteiras culturais, subtraindo a autoria e apagando a história recente. Lévy
(2011) registra nos seus estudos que nesse lugar de novas especificidades
estéticas e de fenômenos incomuns de interação social, não surpreende haver
práticas discursivas por meio de enunciados cada vez mais copiados,
transformados e subvertidos, para atender as condições de produção discursivas
imediatas e mediatas.
A ideia de coletividade responde por ele ter se adaptado ao novo modo de
dialogar e de agir, de arquitetar, transformar e articular enunciados entre eles, a
partir de formas estilísticas que potencializam os interesses imediatos.
Nesse aspecto, a mídia móvel acessada a distância exerce importante
função, hoje, de lugar onde os signos ideológicos, os enunciados e as produções
discursivas circulam estruturados em diferentes formas e sentidos. Nas pesquisas
sobre a mídia cotidiana, ressalta-se que apesar da diversidade de temas
valorizados para atender interesses imediatos e mediatos, são os fios
interdiscursivos25 (MOIRAND, 2006, p. 2) que autorizam sentidos para o interior
do enunciado. Verifica-se na essência das expressões semio-enunciativas e suas
pressuposições de sentidos, que o jornalismo faz circular, o sentido no interior do
enunciado não garante conclusibilidade e nem inteireza. No jornalismo, a
dinâmica de sentido se abriga em sucessivas publicações e na ideia de grande
circulação da notícia e na velocidade de atualização.
Todas essas características reacentuam no jornalismo da mídia cotidiana
seu caráter plurilinguístico social; tido com um lugar de práticas discursivas por
onde circulam discursos plurais, polissêmicos, que, quase pacificamente,
25
Segundo a autora, são estruturas tecidas por palavras, formulações e declarações que se deslocam de um
gênero para outro de mesma hiperestrutura, ou de uma hiperestrutura a outra, em diferentes suportes, no
interior do mesmo acontecimento, ou durante o tempo de duração do acontecimento (MOIRAND, 2006, p. 1415).
33
convivem com diferentes ideologias; um lugar de onde se ouvem vozes na voz de
outros, em enunciações que ligam diferentes comunidades pelo mesmo
acontecimento, levando adiante a forma de comunicação cotidiana de interesse
prático. E, como já antes observado, essa atividade de comunicação se estrutura
e se complementa também na articulação entre suportes, em condições de
espaço e tempo diferentes (ZOZZOLI, 2012 e 2015), através de uma
materialidade enunciativa que tende, quando circula, carregar marcas de
transformações (MOIRAND, 2006).
O percurso teórico feito até agora ajudou abstrair o objeto do discurso e a
tornar inteligível o que se vai observar na ação do sujeito pesquisado. Medidas
que foram reveladas, nas discussões sobre a gênese da ação e a prática do
sujeito do discurso no momento abstrato do projeto concreto e pleno do discurso;
na materialidade discursiva que depois foi analisada nesta investigação. Para
efeito de análises e de acordo com a singularidade do sentido em que se apoiou
essas propostas norteadoras, focou-se na dinâmica interativa do enunciado e nas
formas semânticas-objetais,
que
encaminharam para
as formas semio-
enunciativas.
O estudo constata que a dinâmica discursiva do enunciado do modo
informativo sob o efeito contemporâneo se materializa no e pelo deslocamento,
seja de um suporte para outro, seja de um gênero para o outro. Moirand (2006),
nos estudos, acrescenta que em condições analíticas discursivas da mídia
cotidiana outros dois elementos interagem no mesmo espaço da forma e do tema,
e que são simultâneos: a recorrência e as articulações. Isto posto, nos propomos
demonstrar ser possível que, sob o efeito deste tipo de produção discursiva,
sempre haverá uma intensa reformulação da mesma unidade discursiva e
encaminhamento para análises sujeitas às observações focadas na articulação de
uma unidade a outra, e na representação da palavra de outrem.
1.1 O plurilinguismo social no discurso do sujeito na mídia cotidiana
Na introdução deste capítulo ponderou-se sobre certos aspectos referentes
à complexidade das teorias que apreciam a relação entre o ser e o objeto nas
condições de produção discursiva hoje. Nesse entendimento, procuramos
estabelecer um conjunto de princípios teóricos de análises que enxerga o sujeito
34
do discurso experimentado em singulares leituras e em construção de sentidos no
interior do discurso, saturados de ideologias, através de interações à distância,
conectado pela tecnologia das mídias digitais.
Procuramos sedimentar esses princípios na realidade concreta e imediata
do sujeito do discurso no jornalismo contemporâneo, que esta pesquisa considera
fator determinante do discurso que materializa e ajusta o sujeito do discurso em
relação à sua materialidade histórica discursiva. Fator que o chamado círculo
Bakhtin/Volochinov consagra como determinantes na verificação da “vida
concreta
de
dado
individuo
nas
condições
de
meio
social”
(BAKHTINVOLOCHINOV, 2004, p. 48).
Mas, por trás dos embates em torno das produções discursivas atuais
existe um sujeito do discurso, alocado no contexto de certos aspectos
sociológicos contemporâneos. O contexto interativo, o meio e o ambiente social
que define sujeito do discurso, a forma da sua criação ideológica e o grupo social
ao qual pertence; como já foi visto, são condições que interferem diretamente na
construção do enunciado e na intenção social discursiva. Procuramos, agora, sob
o efeito da sociabilidade contemporânea, compreender as práticas sócio
interacionais do sujeito do discurso assume adaptado, envolvido e submetido ao
ambiente interativo dialógico em rede.
No campo da sociologia contemporânea, autores como Bauman (2004)
define o espaço social de hoje como instável e atravessado por valores
específicos, à medida que os modos e os valores se inovam e interagem
relativizados pelo desejo26. O desejo na Pós-modernidade nasce consequente da
crise de paradigma27 (BAUMAN, 1998), nas condições Pós-Modernas28, e que faz
o sujeito do discurso conviver com a sensação de experimentar uma nova
realidade enquanto sujeito, retido no desejo de consumir e ser consumido. Cria26
Para Bauman (2004), o desejo é um impulso centrípeto, de destruição e de consumo. O sujeito líquido quer
consumir e esse desejo coincide com a aniquilação de seu objeto. O desejo é instigado pela presença da
alteridade, em oposição ao amor (ibidem p. 23-24-25).
27
Para Bauman (1998) a crise de paradigmas diz respeito à estabilidade supra individual da sabedoria
Moderna. Ao afirmar essa concepção, ele se dirige às normas e as resoluções, que imprimiram e conduziram
homens e mulheres a um ideal de beleza, pureza e ordem. Os mal estares da pós-modernidade provém de
uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais (ibidem
1998, p. 10).
28
A Pós Modernidade aqui é compreendida a partir da obra O mal-estar da Pós-Modernidade. (Bauman,
1998). Para o autor, Pós Modernidade representa comportamento de consumo, seja ele objetivo ou não.
35
se, diz o sociólogo do comportamento, uma tensão na relação entre fato e valor,
isto é, entre substância e atributo, na experiência humana atual. Segundo ele, no
momento contemporâneo, a vida “é formada e compilada” e, ao mesmo tempo,
partilhada e administrada, e o “significado é concebido, absorvido e negociado em
torno de lugares”, (BAUMAN, 2004).
Diz Bauman:
Uma situação em que os conceitos que organizam as
nossas percepções impelem-nos a tratar as ocorrências mais
típicas e mais frequentes como exceções, tornando a ‘norma’ uma
noção cada vez mais nebulosa... (BAUMAN, 1998, p. 165).
Bauman (2004) classifica essa materialidade histórica de pós-modernidade
líquida, que nas suas reflexões representa uma sociedade de comunicação e
consumo, em que o discurso concreto e real existe num contexto de linguagem de
exceções. O autor enfatiza que é ai que surge a sensação de estar no centro das
coisas. É pelo discurso que o sujeito experimenta o comportamento social
complexo, impregnado pela infraestrutura tecnológica de comunicação e
interação: onde ele aprende a se conectar e dali ele fala, lê, escreve, na
complexidade da relação entre o ser e o objeto. E assim ele também apaga e
reacende a ideia de uma dependência da relação com o outro para viver.
Através da sociologia da ciber cultura, vimos Lévy (2011) identificar no
caráter coletivo dos diálogos que circulam na internet, no fluxo hiper-real de
dados, a relação mútua entre a cognição humana e a cibernética e que em tais
condições discursivas as movimentações dos sujeitos são sedimentadas na
atividade de um novo tipo de inteligência. Como isso, Lévy quis dizer que interagir
em rede constitui-se num modelo descentralizado onde cada um produz e
dissemina informação, onde o sujeito liquido (BAUMAN, 2004) busca visibilidade
e contatos, por meio de laços culturais e afetivos. E as afinidades são agrupadas
por temas e por similaridades de sentido.
Sob a ótica do dialogismo, numa diversidade social de linguagens
organizadas, às vezes de línguas e vozes individuais, a estratificação interna de
cada língua, na sua existência histórica, dá o tom dos discursos dos diversos
dialetos sociais, insistindo numa unificação de vozes diferentes e todos os seus
temas, todo o seu mundo objetal, semântico, figurativo e expressivo. Nas palavras
36
de Bakhtin, “cada um deles admite uma variedade de vozes sociais e de
diferentes ligações e correlações (sempre dialogizadas em maior ou menor grau)”
(BAKHTIN, 1998, p. 75).
Embora Bauman (1998 e 2004) nunca tenha citado alguma referência ao
dialogismo no seu discurso sobre a sociologia contemporânea, mesmo assim ele
problematiza um sujeito que discursa conectado, constituído no e pelo consumo e
que ignora fronteiras culturais para alcançar usuários em longo prazo29. Isto é,
assim como no grande diálogo social, interagindo à distância, o sujeito do
discurso líquido busca alcançar outros sujeitos em condições instáveis e
imprecisas para, juntos e a distância, enriquecem de sentidos enunciações plenas
de interpretação, na complexa relação entre sujeitos, a cognição humana e a
cibernética.
Em toda essa aproximação virtualizada através do diálogo motivado pela
conexão, onde se lida com sujeitos de comunidades que dialogam em processo
de interação à distância, no “plurilinguismo dialogizado” 30 (BAKHTIN, 1998) a
escolha
dos
temas
potencializa
a
hibridização
das sociedades e
faz
emergir problemáticas socioculturais através de vozes periféricas, trazidas para o
centro do debate, de culturas que até viviam silenciadas na periferia cultural
eurocêntrica. Isso gera tensão.
O sujeito líquido de Bauman (2004) saturado de ideologias, pelo discurso
se desloca virtualmente nas fronteiras culturais, econômicas e sociais da pósmodernidade. Sob a ótica do plurilinguismo dialogizado, este sujeito põe em
circulação pontos de vistas mais urgentes, procurando cúmplices através de
discursos que ele concretiza um mundo hiper-real virtual, experimentando uma
linguagem técnica conectada.
Além de leituras hiperestruturadas e hipertextualizadas, o dispositivo de
leitura (a tela digital), na sociedade líquida, é também o ponto de interseção de
grandes cruzamentos culturais do plurilinguismo social, por onde transitam
enunciados que se relativizam na interação com outros enunciados. Isto exigiu
29
Diz Bauman: o discurso é amarrado ao tempo e por ele nutrido (2004, p. 36).
Bakhtin explica que o plurilinguismo dialogizado vive e se forma na enunciação; é anônimo e social como
linguagem, concreto e saturado de conteúdo, em geral, acentuado como enunciação verbal (BAKHTIN,
1998).
30
37
que novas modalidades de tipos genéricos discursivos fossem criados como
potencializadores de novas maneiras de ler, escrever e interagir.
Assim, no meio de simulações discursivas conectadas, o plurilinguismo
social consiste de ideologias que se rivalizam em condições de igualdade, faz o
sujeito do discurso contemporizar a crise de paradigmas (BAUMAN, 1998) da
sociedade técnica e líquida, sobrevivendo na experiência de uma discursividade
líquida, que o leva, pelo consumo, encontrar razões de existir na instabilidade de
sua existência pós-moderna.
Do ponto de vista ideológico, por intermédio do plurilinguismo dialogizado,
a “consciência linguística” (BAHTIN, 1998) real e saturada de ideologia participa
de um plurilinguismo e de uma plurivocidade autêntica, em que novas ideologias
atribuem novas formas de sociabilidade. Para o dialogismo o discurso é orientado
para a resposta. No meio ambiente midiático, que envolve a dimensão dialógica
discursiva desta pesquisa, é a memória coletiva 31 (LÉVY 2011) que preserva as
expressões semio-discursivas e os instrumentos composicionais (o mundo
objetal, semântico, figurativo e expressivo) que tem como prerrogativa o poder de
multiplicar as ocasiões de sentido.
No grande diálogo social contemporâneo em rede, os textos estruturados
com
links
valorizam
consideravelmente
da
leitura.
Os
dispositivos
hipercontextualizados automáticos transportam o leitor para outros campos
enunciativos, favorecendo compreensão que vai além do nível de apreensão e
relação com outros sujeitos pelo caráter de “objetivação, de exteriorização, de
virtualização dos processos de leitura” (LÉVY, 2011, p. 43).
É pelo consumo inacabado das situações de simulações discursivas, que o
sujeito do discurso relativiza ator e autor pela noção de desterritorialização 32. E
nessa ordem de incertezas, novos hábitos essenciais relativizam o novo na
31
Lévy (2011) explica que o ciber espaço favorece conexões, coordenações e sinergias entre inteligências
individuais e coletivas. Neste caso, são softwares os constituintes da memória coletiva, isto é, micromódolos
cognitivos automáticos que se juntam aos dos humanos, transformando ou aumentando as capacidades de
aprendizagem, de navegação e de comunicação.
32
Esse conceito adapta-se a analise cronotópica proposta por Bakhtin, que, no dialogismo, equivale à
construção de sentido que está na base de todo texto narrativo (espaço) e ao caráter responsivo dos
movimentos do enredo e da história (tempo). Em Lévy (2011), é o desprendimento do aqui e agora,
relacionado ao modo transitório como a informação on line se organiza no ambiente virtual. Segundo o
próprio autor, “o hipertexto contribui para produzir aqui a acolá acontecimentos de atualização textual, de
navegação e de leitura” (2011, p. 20). Isto é, embora as comunidades virtuais se organizem, por afinidades,
sobre bases de sistemas de comunicação telemáticos, seus membros se reúnem em núcleos de interesse,
reinventando uma cultura nômade.
38
complexidade dos novos tipos de ideologia, inteligência e de memória33.
No
34
sentido dado ao novo , em condições do diálogo social e subordinado ao sentido
estrito dos acontecimentos contemporâneos, os sujeitos do discurso se
acomodam a se preservam lá, mesmo que temporariamente, nas ideologias
materializadas de uma dinâmica de fatos e valores imediatos.
É o novo que nas atribuições dialógicas apaga a memória de curto prazo. É
apontado por Zizek (1996) como sintoma contemporâneo da fragilidade
ideológica 35. Autor de grandes tratados polêmicos, o novo relativizado por ele é
quem contribui para o sujeito desaprender o discurso acabado como condição do
passado, ou como fonte, que ele retorna de acordo com a ordem do interesse
imediato. Desaprendido, o novo se rende à velocidade da atualização,
desaprendendo também de forma radical um acontecimento inteiramente inscrito
na lógica da ordem existente.
Assim, Zizek (1996) justifica porque subjugadas ao novo as ideologias na
contemporaneidade se inscrevem na instabilidade, abstraídas e colocadas em
oposição à internalização da contingência externa que se instala nas bases da
relação com a hegemonia econômica e política, com as lutas de classes sociais e
os antagonismos ideológicos. Segundo o próprio sociólogo, isso se resolve com a
ideologia trabalhando o conceito do não mais é (ibidem 1996, p. 13). Esse
sintoma costuma apagar o jogo das ocorrências que marcam as ocasiões de
dominação e espoliação geopolítica. No dialogismo em rede, a consciência
linguística reforça a ideia de que toda ideologia sempre será a externalização do
resultado de uma necessidade externa.
Na ideologia do cotidiano (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004), os conflitos
ideológicos coletivos estão na gênese das coerções e ajustados indicados pela
hegemonia econômica, em toda sua extensão, em todas as suas etapas. Em
contrapartida, sob os efeitos do diálogo social contemporâneo, pelas forças de
33
Para Moirand (2007), a memória é o que constitui o discurso midiático. A autora explica que na mídia o
saber é estruturado segundo a escolha da atividade discursiva, para dar conta dos fatos do mundo, que só
assim podem ser ditos, descritos ou explicados.
34
Para Zizek (1996), está na gênese da matriz dialética que regula o velho e o novo. Isto é, existe pelo
antagonismo, é a fonte produtora da matriz de uma ideologia geradora de liquidez, experimentada na
sensação de instabilidade Pós-Moderna (BAUMAN, 2008).
35
Segundo Zizek (1996), a fragilidade das ideologias se materializa e ganha força no movimento repetitivo de
sensações intermediárias de ideologias; isto é, o sujeito reinventa e atualiza ideologias que só existem na
alteridade.
39
resistência da língua a ideologia ganha nova camada de sentido e se reveste de
meio essencial pelo qual os sujeitos do discurso experimentam desde suas
relações com as estruturas sociais, até as ideias falsas que legitimam um poder
politico dominante (ZIZEK, 1996, p. 9).
As condições do diálogo social contemporâneo de Bakhtin (2001) nos faz
entender a ideologia, no sentido estrito do termo, para além do limite do corpo
individual, personificada numa expressão de consciência de classe. Nesse
sentido, nos relatos deste autor, todo produto da linguagem do sujeito do
discurso, em todos os momentos essenciais do diálogo social, é determinado pela
situação social em que ressoa essa enunciação, ao contrário dos que pensam
que ela ocorre pela vivência subjetiva do falante. Na palavras de Bakhtin, a
linguagem e suas formas são produtos de longo convívio social de determinado
grupo de linguagem.
Diz o autor:
... não se pode tomar como verdade nenhuma ideologia,
seja individual ou de classe, nem acreditar nela sob palavra. A
ideologia mente para aquele que não é capaz de penetrar no jogo
de forças materiais objetivas que se esconde por trás dela
(BAKHTIN, 2001, p. 79).
No modo informativo do jornalismo contemporâneo o cenário se configura
na discursividade que ganha força na significação cotidiana do tema (BAKHTIN,
1998), e se manifesta nas intenções isoladas do discurso de um sujeito autorizado
a falar: um cenário de contextos temáticos que o plurilinguismo dialógico dilui em
diálogos plenos de atravessamentos ideológicos de onde se ouvem diversas
línguas sociais nas vozes de outrem.
Sob a perspectiva dialógica, na essência das relações mais imediatas ou
mediatas (e neste caso, mediadas) a força do tema une e dá sentido ao diálogo
na materialidade da ação comunicativa. O tema se transforma numa ação de vida,
um meio de divulgar ideologias que torna um enunciado real de um conteúdo
único e concreto. Em Bakhtin (2003), através de sua forma e tema, o enunciado
ganha valor toda vez que se realiza uma ação comunicativa de acréscimos pela
evidência da sua condição de produção discursiva e pelas condições imediatas do
diálogo.
40
Hoje, sob os efeitos dos fundamentos do dialogismo bakhtiniano e na
perspectiva de Lévy (2000), é válido afirmar que as ações comunicativas e de
vida do sujeito do discurso autorizado se relativizam em duas frentes: na mútua
relação entre a vida do sujeito e sua relação com a linguagem; e na relação entre
a cognição humana e a cibernética. Essas frentes emergem e se materializam na
internalização da contingência externa que vem das bases, sob a pressão da
hegemonia econômica e política, de lutas de classes sociais e antagonismos
ideológicos. Tudo isso coexistindo num ambiente discursivo de fácil acesso à rede
mundial de computadores e a diversidade dos suportes midiáticos de interação
disponíveis.
No campo das premissas possíveis, o dialogismo prevê uma dialética entre
a vida e a língua, que, segundo Bakhtin, coabitam em condições intrínsecas de
relação imediata (BAKHTIN 2003). Assim, podemos dizer que no dialogismo a
linguagem do jornalismo cotidiano evidencia a total integração entre língua e vida
todas as vezes que são elaborados enunciados concretos com propósitos
discursivos específicos e de interesses práticos; sobretudo e principalmente,
referenciados nas formas mais cotidianas de interação social.
Diz Bakhtin que é por meio de enunciados concretos que a vida se
relaciona com a língua nas vezes que interage com o sentido, no interior do
enunciado. Por isso, procuramos tratar o enunciado do modo informativo, aqui,
como “um núcleo problemático de importância excepcional” (BAKHTIN, 2003, p.
265); que num dada materialidade histórica mostra as vezes que os fios
discursivos entrelaçaram vida e língua.
Essa problemática só foi possível de decifrar naquilo que o chamado
círculo Bakhtin/Volochinov determina como a vida concreta de um sujeito através
do discurso; isto é, no “ato de compreensão” (BAKHTIN, 2001, p.61) do sentido e
na “ativa compreensão responsiva” (BAKHTIN, 2003, p. 271) na interações
dialogizadas. Para o dialogismo, são as condições que efetivam a comunicação
contemporânea dos sujeitos do discurso que pensam e agem em seus
particulares existenciais. Ainda no dizer do autor, os fatores sociais determinam e
faz com que o sujeito do discurso esteja sempre se associando a ideologias, de
onde ele depreende interpretações socioideológicas, para apreciar a vida.
41
No entendimento do chamado círculo BAKHTIN/VOLVOCHINOV, os
processos dialéticos se realizam fora do organismo vivo, na realidade do signo e
no material semiótico sem os quais não se pode falar em sujeito do diálogo e do
discurso. Isto torna válidas, portanto, as afirmações de que, no diálogo social, o
sujeito do discurso interage reagindo ao seu meio social, no limiar entre o
organismo vivo e a realidade exterior, onde ele, quando discursa, se opõe e
reflexiona36.
Partimos do princípio de que a realidade da vida concreta do sujeito do
discurso é a do signo, que esta é uma realidade ideológica, isto é, “um território
concreto, sociológico e significante” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004, p. 57);
sobretudo, quando nos referimos à realidade social que o sujeito pesquisado se
encontra. Entendemos ainda que, submetidos aos fundamentos da causa, pelas
mãos do sujeito do discurso o signo significante, concreto e sociológico é
relativamente livre; isto é, ele não estabelece fronteiras entre a realidade
semiótica e a intensão discursiva. Este fenômeno ideológico contemporâneo
“banha-se nos signos interiores”37 (idem 2004), independentemente do signo
ideológico ao qual ele se relaciona no exterior, não importando em natureza
esteja.
Relacionar a relação do sujeito do discurso e a comunicação mediada,
sugere uma dimensão que tem como componente a função semiótica expressiva
de seu tempo. Portanto, enxergamos no contexto interativo do modo informativo,
o discurso como função social com certa tendência ideológica onde o signo e a
situação social se inscrevem. Para o chamado círculo Bakhtin/Volochinov a
função social do signo ideológico
nasce deste oceano de signos interiores e ai continua a
viver. Nos seus relatos, a vida do signo exterior é constituída por
um processo sempre renovado de compreensão, de emoção, de
assimilação, isto é, por uma integração reiterada no contexto
Interior (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004, p. 57).
36
Para Bakhtin, a consciência é coletiva e social. Diz ele: o individuo não tem apenas meio e ambiente, tem
também horizonte próprio. A interação do horizonte do cognoscente com o horizonte do cognoscível. (...)
neles se cruzam e se combinam duas consciências (a do eu e a do outro); aqui eu existo para o outro com o
auxilio do outro (2003, p. 394).
37
Consciência, no dialogismo, é um fato sócio-ideológico, não acessível a métodos tomados de empréstimos
à filosofia ou às ciencias sociais (BAKHTIN, 2001, p. 48).
42
Retomando as referencias dos estudos de Zozzoli (2012), vemos o tema na
forma
semio
expressiva
aparecer
como elemento
momentâneo
e
fundamentalmente aglutinador de interesses imediatos. Segundo a própria autora,
o tema (ou motivo, segundo o próprio Bakhtin) não deve ser tratado apenas como
elemento essencial nos processos dialógicos. Para Zozzoli,
no mundo atual, os motivos surgem e desaparecem,
diversificam-se e transformam-se na mesma medida em que o
diálogo social se movimenta. Quanto mais as possibilidades de
comunicação se alargam, mais a dinâmica das mudanças dos
motivos, dos gêneros e dos suportes é intensa (ZOZZOLI, 2012 p.
364).
Nesse contexto, no ápice desse intenso fluxo de diálogos líquidos do modo
informativo do jornalismo, motivados pelo tema e impregnados por ideologias
fragilizadas, no diálogo social o sujeito do discurso faz circular composições
linguageiras capazes de reflexionarem e refratarem realidades paralelas, sem
deixar de fazer parte da realidade material a qual estão ligados. Considerando,
portanto, certos aspectos do dialogismo neste campo de comunicação, os modos
de linguagem, pela força e fluência expressiva, materializam formas e sentidos a
partir de uma alteridade egressa de uma interatividade relativamente artificial.
O sentido no interior do discurso atribuído a complexa cadeia de fios
discursivos tecidos pelo discurso do jornalismo, sob a ótica de Bakhtin (2003),
pode relacionar desde o que há de mais introspectivo no sujeito do discurso até
aquilo que liga o seu interior ao exterior imediato, ao outro e a si mesmo.
Sobretudo, agora, que essas ligações se estendem também à máquina
conectada.
Resgatando as reflexões sobre a questão geral do gênero do discurso
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2003 e BAKHTIN 2004), se verifica que a cadeia de
fios discursivos, provocados pelo sentido no interior do discurso, não são
elementos distintos, mas complementares. Assim, relacionando esse conjunto
teórico à complexidade das interações sociais de hoje, observa-se que no interior
do discurso os processos enunciativos nas mídias sociais, sob o efeito interativo
hipercontextualizado, são objetivos e operacionais, nos quais as condições
43
dialógicas acrescentam valor ao conteúdo do enunciado na potencialidade do
coletivo.
Hoje, este valor está condicionado a fatores materiais históricos ligados à
velocidade das conexões, mas, sem se distanciar da internalização da
contingência externa nas bases da relação da hegemonia econômica e política,
de lutas de classes sociais e antagonismos ideológicos.
Situada
nessa
sociedade
líquida, de
máquinas
de
interatividade
conectadas, esse estudo toma como referência a ideia de que os “signos
ideológicos”
(BAKHTIN/VOLOCHINOV,
2004)
estão
na
ordem
de
uma
substanciosa simbiose ciber cognitiva de inteligências coletivas e memórias
artificiais. Para efeito desta investigação, hoje, no ambiente interativo conectado,
as expressões semio-enunciativas são produtos de consumo dos sujeitos do
discurso na condição de produtos para o consumo em massa, sem perder seu
potencial de eficiência discursiva.
Esta investigação que se envolve com as condições de produção
discursivas da materialidade analisada e enunciados recortados nas expressões
semio-enunciativas do sujeito pesquisado, seguirá o entendimento de que na
sequência de signos transportados do site de noticias para o aplicativo Twitter
valor discursivo se agrega na essência da significação do sentido ideológico
expressivo. Sentidos estes que são reinventados sem apagar suas características
originais; isto é, eles se transformam, mas preservam o “universo do signo”
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004) de onde são retirados.
Com base na pressuposição do pensamento filosófico da linguagem do
chamado círculo Bakhtin/Volochinov, na elaboração de uma linguagem que se
comunica à distância através de máquinas conectadas, constata-se que em toda
crítica ao discurso, não importa que abordagem seja admitida, o foco investigativo
deve se concentrar na forma como desvio, como transgressão, como ruptura e
no diálogo como jogo de confrontação e contradições da luta de classe
(BAKHTIN/VOLOCHINOV 2004).
As análises buscam evidenciar as consequências discursivas da relação
entre a cognição humana e a cibernética, concentrando-se na forma especifica da
língua, das palavras e dos temas por meio dos quais o sujeito do discurso
44
pesquisado desenvolveu técnicas linguageiras de enunciação e de convívio
social.
1.2 A forma híbrida na dialogização interna do enunciado informativo
Dentro dos princípios fundamentais da discursividade dialógica de Bakhtin,
tentando estabelecer a forma enunciativa do enunciado que o sujeito da pesquisa
estruturou criativamente como parte do valor dado ao sentido do conteúdo do
discurso plenamente acabado, optamos por acompanhar os processos de
articulação do enunciado de uma mídia para outra e ver o que acontece. Vimos,
registramos e analisamos a transformação estrutural que o enunciado sofreu
quando transportado do site de notícias para o aplicativo Twitter.
No princípio, tomou-se a forma enunciativa na condição de uma atividade
que se limita a obra material. Em seguida, procurou-se entender como essa
mesma forma pode vir abranger a condição de uma expressão semio-enunciativa
discursiva de dada relação dialógica objetiva no modo informativo do jornalismo
cotidiano.
Procura-se, com isso, validar a forma enunciativa como elemento essencial
para esta investigação que transcorreu no universo do discurso dialógico em rede.
Pelo caráter que a forma enunciativa, na condição de organismo vivo da
materialidade histórica dada, se apresenta no diálogo e expressa vozes
dissonantes ou concordantes no grande diálogo social. Em condições de
interação discursivas dialógicas, neste caso, a forma do enunciado registra, na
exteriorização do ato individual de enunciação, a existência de ao menos duas
consciências linguísticas e dois sujeitos sincronicamente localizados em duas
realidades linguísticas distintas: um que fala e outro que ouve.
Do ponto de vista do contexto dialógico enunciativo, entendemos que a
forma estrutural das expressões semio-enunciativas dos enunciados informativos
realizada pelos sujeitos de discurso social, geográfica e ideologicamente
localizados é consequência da medida da ideologia hegemônica. Nas ocorrências
de relação e correlação com a alteridade virtual, nos parâmetros do discurso
constituído e acabado (BAKHTIN, 1998), na mídia cotidiana a forma do enunciado
também se localiza na fronteira de sentidos; porem, se materializa tomando parte
45
na totalidade da “ativa posição responsiva”38 (BAKHTIN, 2003, p. 271). Isto foi
observado no sujeito pesquisado, nas práticas e atitudes do diálogo conectado
em rede.
O diálogo na mídia cotidiana bebe da mesma fonte dos diálogos no
cotidiano discursivo. A diferença é que no modo informativo do jornalismo na
mídia digital os enunciados transitam entre suportes virtuais, estabelecendo os
mesmos fios discursivos que ligam enunciados bases aos enunciados
consequentes, e que são condicionantes fundamentais para a construção de
sentidos.
O falante, para o chamado círculo Bakhtin/Volochinov (2004), encontra-se
mais preocupado com a fala imediata. Diz ele que nestes casos “para o falante
não importa o aspecto da forma, que permanece o mesmo em todos os casos do
seu uso por mais variados que eles sejam” (ibidem 2004, p. 177), porem,
acrescenta, que o mais importante no aspecto geral do diálogo é a tarefa da
compreensão no contexto concreto. Para esta análise, a forma faz parte do ato de
compreensão ativa do discurso, porque em cada uma delas encontramos
segmentação em conta gotas do plurilinguismo social nas ligações e correlações
entre as enunciações e as línguas, movidas pelo tema que passa através de
línguas e discursos.
Nos referencias do dialogismo (BAKHTIN 1988 e 2004), o dialogo é
resultado da “interação de pelo menos duas enunciações”, sejam elas “citadas ou
narradas”39 (BAKHTIN, 2003, p. 146). O objeto da forma influencia e determina o
ato individual composicional enunciativo nas ocasiões das atividades de
comunicação de transmissão de interesse prático. E no planejamento da dinâmica
linguístico-dialógica de interação, a forma vai mostrar que no enunciado sempre
haverá a absorção de ideias e sentimentos de outra enunciação. Fazendo uso de
regras sintáticas, estilísticas e composicionais, sempre preparadas para assimilar
parcialmente outro enunciado, até que o conteúdo seja incorporado na forma de
sua própria unidade.
38
Nesse contexto, reivindico Bakhtin (1998) para garantir ao conteúdo temático sentido e valor na relação
subjetiva entre o falante, o conteúdo do objeto e o sentido do seu conteúdo.
39
O principio bakhtiniano descreve dois modos de formulação necessária na recolocação contextualizada do
comentário efetivo. Um tem a ver com o fundo participativo da palavra, no discurso narrado, e o outro, o
discurso citado quando em uso, na situação interna e externa (BAKHTIN, 2003, p. 147).
46
No enunciado do modo informativo do jornalismo cotidiano as pressões
ideológicas verificadas nas expressões semio-discursivas e de vida fazem dele
um organismo vivo pleno de dizeres ideologicamente saturados, cujo discurso do
sujeito reflexiona uma diversidade de vozes alheias. Nos relatos do dia-a-dia do
jornalismo, de formas sujeitas aos interesses políticos e econômicos dominantes,
correlacionam sujeitos e discursos quando as palavras de outrem é informada,
através dos modos mais cotidianos de interação.
A investigação considera fundamental nessa análise o caráter impositivo do
enunciado de um gênero discursivo e de seus tipos genéricos na essencialidade
de uma unidade real de comunicação discursiva. O enunciado do jornalismo
cotidiano submetido à causa dos parâmetros do dialogismo, mostra-se uma
atividade de comunicação que revela o quanto, “a evolução ideológica do homem
– nesse contexto – é um processo de escolha e assimilação das palavras de
outrem” (BAKHTIN, 1998, p. 142).
Permanecendo nas argumentações de Bakhtin (1998 e 2003) pode-se
constatar duas situações discursivas: numa, de que as influências ideológicas são
essenciais no jogo do diálogo social do jornalismo cotidiano – citando Bakhtin, o
“objetivo da assimilação da palavra de outrem (...) adquire um sentido ainda mais
profundo e mais importante no processo de formação ideológica do homem, no
sentido exato do termo” (BAKHTIN, 1998, p. 142); na outra, de que ele atua numa
totalidade de “práticas e atitudes” (LEVY, 2011), que se faz presente em “todos os
domínios da vida e da criação ideológica” (BAKHTIN, 1998, p. 139). As duas
situações, no momento contemporâneo, são ações planejadas para valorizar as
criações linguageiras que se materializam e circulam no ambiente virtual.
Na interação cotidiana pelo enunciado informativo, torna-se evidente que o
contexto do jornalismo cotidiano é um meio e ambiente de formas e expressões
semio-enunciativas, que reflexiona os antagonismos ideológicos e os conflito dos
interesses econômicos, se aproveitando dos apagamentos ideológicos, para se
isentar das implicações imediatas das contradições de classe e de ideias
marginais.
Para estabilizar as relações e evitar constrangimentos e problemáticas dos
conflitos em jogo, no jornalismo publicado na internet, a linguagem de
47
textualidade eletrônica40 chega ao interlocutor plena de referencialidades e de
representações. Tem a função de elemento essencial nos procedimentos de
escolha e assimilação ideológica, por onde a ideologia hegemônica se
escamoteia no modo de comunicação de interesse prático41.
Essa situação reforça a teoria de que o signo ideológico é uma refração
direta das ideias presentes nas intenções da vida cotidiana dos sujeitos, que
através de discursos valorizados pela introdução da palavra alheia colaboradora,
se lançam no esforço incansável de harmonizar o plano da expressão e do
sentido com a intenção de convencer, concordar ou discordar. Na ação de um
sujeito polifônico (BAKHTIN, 1998), cuja história e o lugar de sujeito do discurso
falam sobre ele e sobre o tratamento que ele dá ao signo ideológico
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004), e ainda o uso das formas, das expressões
semio-expressivas e os conteúdos
Mais um indício de que o modo do jornalismo informativo faz parte da
problemática trazida aqui. Uma prova material de que quanto mais intensa,
diferenciada e elevada é a vida social de um grupo de sujeitos discursivos, mais
se registra nos discursos um grande volume de palavras de outrem, que, como o
próprio Bakhtin (1998) diz, são transmitidas com todos os graus variáveis de
precisão e imparcialidade.
Os gêneros recortados nesta análise demandaram uma descrição, que os
ajudasse a relatar as formas de transmissão das palavras de outrem na ação do
sujeito que faz uso da mídia cotidiana. E, na conta da diversidade de gêneros
discursivos, uma classificação do tipo genérico que melhor se inscrevesse nas
condições discursivas do momento contemporâneo estudado. Defende-se, aqui, a
ideia de que a classificação de uma, ajudará a delimitar o relato do outro.
40
Em Chartier (2003) é uma nova forma de construir discurso nas modalidades especificas. Neste caso, diz o
autor: “a ordem do discurso é assim estabelecida a partir da materialidade própria de seus suportes” (ibidem
p. 109).
41
Em Bakhtin (1998) além de ser a forma de transmissão do discurso cotidiano, é também quem determina
todas as formas de transmissão cotidiana da palavra de outrem e registra as transformações materiais e
históricas relacionadas com estas formas. E de acordo com o chamado círculo Bakhtin/Volochinov, a força do
diálogo da comunicação de transmissão de interesse prático é uma aptidão da linguagem representativa,
numa perspectiva relacional entre o ato isolado do falante e o momento em que o discurso constrói sentidos.
Ou seja, ressoa ao mesmo tempo no diálogo e fora dele, para fala dele, falando com ele nas condições
representativas do objeto que fala por si mesmo (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004).
48
No contexto teórico supracitado, no risco de uma análise sobre as
investigações em jogo e no modelo atual de linguagem de textualidade eletrônica
desta pesquisa, ajusto o tipo genérico do meu objeto de estudo à categoria de
elemento variável do gênero híbrido (BAKHTIN, 1998). Aplica-se esse elemento
genérico por entender que o tipo de gênero relativiza o gênero do jornalismo da
mídia cotidiana, por que nele se estruturam linguagens sociais e formas
diversificadas para estabelecer sentidos no interior dos signos ideológicos.
Optamos pela classificação do gênero do tipo híbrido por dois motivos: pela
tendência que ele tem de intermediar cruzamentos e misturar linguagens sociais,
e por assumir uma estrutura que se mostra interessada na pluralidade de formas
e gêneros discursivos (artigos, resenhas, reportagens, cartas, gráficos, imagens,
etc), que são facilmente identificadas na interação discursiva mediada do
jornalismo cotidiano.
Assim, tomando a ideia geral do gênero de formação híbrida, valorizarmos
as representações de linguagens sociais diversificadas do gênero jornalístico,
porque se sobrepõe aquela que representa, àquela que agora é representada. A
forma híbrida composicional do enunciado, como o próprio Bakhtin diz, está
comprometida em formar uma imagem da linguagem, de maneira conclusa e
inteira, com a intenção de constituir no discurso “uma amostra da língua de
outrem (...) autêntica ou falsa” (BAKHTIN, 1998, p. 157).
Na ação dialógica, em Bakhtin (1998), o elemento abstrato e subjetivo do
ato individual da palavra representada influência as forças sociais organizadas,
relatando o modo dos sentidos do discurso. O sujeito do discurso do jornalismo da
mídia cotidiana neutraliza sua presença aparecendo no enunciado pressupondo
uma terceira pessoa. Isto é, o sujeito na ação unilateral discursiva se abstrai
empiricamente da forma do “eu”, numa dada condição social discursiva de um
enunciado, fazendo uso dessa indeterminação para falar na condição de autor.
Maingueneau sinaliza para o “eu” preposicionado em “se” por onde o sujeito se
escamoteia no discurso sob o signo da indeterminação. Para o autor, o sujeito se
apropriando do predicativo de indeterminação na condição de agente verificador
(MAINGUENEAU, 1997), aparece no discurso na condição de fiador de validades
conteudísticas.
49
Na perspectiva de uma investigação interpretativista de caráter analítico
dialógico discursivo (Bakhtin (1998) e autores correlatos) averígua-se que uma
das característica da forma híbrida composicional do enunciado do jornalismo
cotidiano é neutralizar o agente verificador conteudístico no discurso. A forma
híbrida desaparece com o autor que deixa, citando Bakhtin, “de existir no nosso
exterior como um material percebido e organizado de modo cognitivo,
transformando-se na expressão de uma atividade valorizante que penetra no
conteúdo e o transforma” (ibidem 1998, p. 59).
Tudo isso nos faz concluir, portanto, que a forma híbrida composicional do
enunciado de conteúdo informativo do jornalismo cotidiano se esgota toda vez
que o sujeito do discurso experiencia uma relação ativa (BAKHTIN, 1998) com o
conteúdo do discurso e com o outro. Para esta pesquisa, a forma híbrida
composicional do enunciado é abstraída da contemplação estética terminada, em
troca de uma empatia ética, para, ainda segundo o próprio Bakhtin, num esforço
de dominação criativa, fazer entender o enunciado de outrem e dele retirar o
objeto de análise do próprio enunciado.
1.3 Crítica ao caráter industrial do texto no jornalismo – o enunciado como
mídia de comunicação contemporânea
No contexto de formação híbrida composicional do enunciado de conteúdo
informativo tomou-se o cuidado de averiguar os aspectos singulares da massa
textual do jornalismo cotidiano, a partir da visão interpretativista, de caráter
analítico dialógico discursivo, e nela a estrutura das variadas linguagens sociais e
formas composicionais diversificadas que são usadas para estabelecer sentidos
no interior dos signos ideológicos. Inicialmente, reconhecemos nesta atividade de
comunicação contemporânea a condição de principal motivação do pensamento
social, hoje, e adota o conceito de “informação jornalística” o que Adam e
Heidmann (2004) descrevem como as formas enunciativas multissemióticas,
procurando acrescentar a área do ideológico sobre esta materialidade de planos
no texto e nas sequências que envolvem a relação entre texto e imagem.
A massa textual do jornalismo vem sendo tratada apenas no seu contexto e
sua expressão direta, como um enunciado gerado pela “indústria de texto para o
consumo público”, que se encontra “em ligação com as condições concretas em
50
que se realizam” (LAGES, 2003, p. 35). É comum nesse campo do conhecimento,
as análises recaírem em orientações normativas da língua, reduzindo o enunciado
a um sistema de sinais, jamais relacionado às tratativas do ideológico. Ao revestir
a massa textual do jornalismo na forma de produto fabricado em série, ao
enunciado é atribuído o valor de parte do sistema de comunicação de massa,
potencializado pela velocidade de produção e difusão de acontecimentos
ordinários.
Essa visão estéril se consolida ainda mais quando a massa textual do
jornalismo é localizada num conjunto de ações de comunicação complexas, que,
enquanto atividade interdiscursiva e heterogênea na mídia cotidiana, é resultado
de um trabalho coletivo que envolve vários autores/atores em diferentes papéis
(pauteiro, repórteres, redatores, editores e fonte de informação em diferentes
interlocuções) para materializar discursos na interação com leitores potenciais.
Essa forma de pensamento estilístico42 reconhece apenas a neutralidade do
discurso e o enunciado informativo do jornalismo como um objeto constituído pela
casualidade.
Em suma, os relatos neste campo do conhecimento da Comunicação
Social dão conta apenas da essência, tratando a massa textual do jornalismo
como um processo de unidade textual não linear, configurado em conformidade
com um determinado tipo de gênero do discurso e um suporte, e que se
materializa a partir da conjunção de várias linguagens (verbal, visual, textual,
sonora e imagética).
Por se tratar de comunicação de interesse prático, esta pesquisa consorcia
a atividade de comunicação do jornalismo àquilo que Bakhtin (1998) reporta aos
estudos de novos fenômenos no campo da linguagem e do discurso, dando a
massa textual do jornalismo o tratamento de fenômeno exclusivamente
explicáveis por fatores sociais. Segundo o próprio Bakhtin, são fatores “que
determinam a vida concreta de um dado individuo, nas condições do meio social”
(ibidem 1998, p. 48), ao qual pertence e no qual ele atua como produtor de
enunciados.
42
O estilo aqui é compreendido como um organismo vivo que tem indicações externas e correlação “de seus
elementos próprios com aqueles do contexto de outrem” (BAKHTIN, 1998, p. 92).
51
A fim de esclarecer a estrutura do enunciado desta atividade comunicativa,
no contexto do diálogo social do jornalismo cotidiano, a narrativa informativa é
ordenada a partir de fatos oriundos de uma variedade de situações encontradas
no momento objetivo da ação, cujo valor do tema se agrupa numa só unidade
textual para dar sentido à forma semio-expressiva desejada. Encontram-se nos
relatos de Lages (200) que, em geral, o sujeito do discurso constrói os sentidos a
partir de um aparente caos de pequenos acontecimentos constituintes de um
acontecimento-base, num esforço discursivo que corre o risco de perder seu
valor, pela dinâmica da atualização e velocidade de circulação dos fatos.
Nessas ocasiões, no jogo de sentidos, o fato recortado de uma dada
realidade material ganha força de discurso pela noção de valor intrínseco
atribuído por quem o observa e o valoriza, recorrendo a um tema que se destaca
de um conjunto de fatos cotidianos. Nesta ocasião, o enunciado publicado age
diretamente no diálogo social, pressupondo sentidos que se fortalecem à medida
que estimula o interesse de um grande número de pessoas, porque, guardadas
as devidas proporções, uma determinada massa textual do jornalismo publicada
pode impactar ou afetar a vida de todos, de maneira positiva ou negativa.
Supondo que isso só acontece na conclusibilidade da forma dada ao
acontecimento, a dinâmica da expressão semio-enunciativa do sujeito do
discurso, nessas ocasiões, ganham valor pela velocidade de atualização, na
abrangência da transformação da massa textual e nas sucessivas publicações
que ele executa. Para preservar o enunciado ativo, sua massa de enunciados
exige que sejam feitas unidades reais de comunicação discursivas, reconhecendo
o papel ativo do outro no processo de comunicação discursiva.
Na particularidade da complexa ação comunicativa no jornalismo, observase certa flexibilidade no uso de regras semânticas e lexicais, com o intuito de se
preservar sempre atual, na ordem da dinâmica da velocidade e da atualização.
Como se pode observar grifo de Lages (2003), “em jornalismo, a ênfase (do tema)
desloca-se para os conteúdos, para o que é informado” (ibidem 2003, p. 35),
deixando de lado as contingências das normas rígidas da linguística. É assim, que
os fazeres textuais do jornalismo obrigam os redatores a deixar de lado algumas
dessas regras da língua, evitando, por exemplo, usos linguísticos pobres e
cartoriais.
52
Nessa dinâmica enunciativa, alguns especialistas da Comunicação Social,
entre eles Barros Filho (2003), relatam que a comunicação diária do jornalismo
cotidiano resiste aos conflitos ideológicos e de linguagem, vendendo a ideia de
que é uma atividade de comunicação onde debates e discussões se intercruzam,
para estabilizar as contradições de classes sociais e os antagonismos
ideológicos, escamoteando a pressão dos interesses da econômica e da
hegemonia ideológica.
O valor da natureza social do enunciado do jornalismo reside na sua
versatilidade. Por um lado, é considerado por esses especialistas da linguagem
na Comunicação Social como um produto à venda que, pelo caráter industrial,
passa por uma linha de montagem (material e intelectual) que é, ao mesmo
tempo, definidora e estruturante. Mas, por outro lado, alguns deles consideram
tratar-se de um produto, uma mercadoria política e ideológica, cujos sentidos
predominantes (sua linha editorial, no jargão do jornalismo) em jogo definem e
identificam com antecedência o público-alvo para o qual ela é destinada para ser
consumido.
Do ponto de vista de Barros Filho (2003), por se tratar de um “espaço
concorrencial de posições ocupadas por empresas, profissionais da imprensa e
os receptores atravessados de efeitos” (ibidem 2003, p. 11), essa ideia limita
ainda mais as produções de conteúdo dos enunciados, porque se encontra sob a
pressão da produção econômica dominante contingenciada pela forma na qual
seus enunciados produzidos em massa serão consumidos. Neste sentido, as
expressões semio enunciativas do jornalismo cotidiano são uma ação de mercado
com o objetivo de atrair parceiros e anunciantes com interesses ideológicos
similares.
Nesse aspecto, por se tratar de uma atividade de comunicação industrial
de massa, condicionada às pressões ideológicas e econômicas, os conteúdos
enunciativos são processos de centralização e de unificação da língua na
condição da materialidade discursiva individualizada, atuam no meio do
plurilinguismo,
naquilo
que
Bakhtin
(1998)
retrata
como
as
línguas
socioideológicas; isto é, atuam na estratificação de grupos sociais. No grifo do
próprio autor, “a estratificação e o plurilinguismo ampliam-se e aprofundam-se na
medida em que a língua está viva e desenvolvendo-se” (ibidem 1998, p. 82).
53
Nessas condições, verifica-se que não há nada de romântico, nem de
idealista no jogo das produções enunciativas do jornalismo cotidiano. Nesta
avaliação, observa-se a presença de discursos dissimulando a ideia de que as
diversas formas de luta de classes sociais e econômicas cotidianas passam por
ali. Mas, quando discursa, essa linguagem atende às condições sociopolíticas e
ideológicas da comunidade culturalmente organizada a qual ele pertence.
Observa-se, portanto, que pela noção de valor intrínseco, o tema é
selecionado
entre
tantos
acontecimentos
de
sociedade
previamente
estabelecidos, um acontecimento-base (MOIRAND, 2006) recortado de uma
realidade material valorizado para construir uma massa textual informativa. Do
ponto de vista do dialogismo, a ação voluntária discursiva, ou a noção de intuito
discursivo (BAKHTIN, 2003), dá origem ao sentido que se traduz “na realidade do
signo e do material semiótico” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004), que, para o
chamado círculo Bakhtin//Volochinov, o valor do sentido se potencializa à medida
em que procura despertar o interesse de um grande número de pessoas. Neste
caso, para pressupor sentidos, recorre-se à memória coletiva.
O mesmo ocorre no ambiente digital da mídia cotidiana. O sentido do
discurso no interior do enunciado da linguagem de textualidade eletrônica também
se preserva graças à versatilidade de regras linguísticas gerais e flexíveis, que
são reveladas nas constantes reformulações estruturais do gênero do discurso e
estão relacionadas com o objetivo e a intenção discursiva primária do autor.
Assim, o sujeito do discurso mantem ligações entre os enunciados, ajustando a
massa textual informativa do acontecimento ao modo e às condições de produção
dados. De acordo com as ideia de Lages (2003), em qualquer análise atribuída a
esse campo de pesquisa é necessário observar os registros, os processos e,
nesta pesquisa acrescentou-se os comprometimentos ideológicos.
No ato bilateral frente ao processo interativo, nota-se que nesse tipo de
escrituração informativa pretende-se uma eficiência na ação de comunicação,
mesmo que de forma arbitrária, esquecendo-se muitas vezes de que depende da
aceitação do interlocutor/leitor potencial. Percebe-se que nessas ações, o sentido
potencializado no interior do enunciado preserva um estilo de linguagem
impregnada pela novidade. Lages (2003) explica que, para isso, é comum o
jornalista incorporar nos enunciados neologismos; novas denominações de coisas
54
e de pessoas; metáforas com intenções críticas; e designações técnicas em sua
exata significação43. Por exemplo, no Brasil, malufismo impregnou-se na memória
coletiva com o sentido de alguém que rouba dinheiro público e nada lhe é
imputado; orelhão denomina o telefone público; crime de colarinho branco
designa crimes de corrupção praticados por políticos, entre outros.
No grifo de Lages (2003), na ação de “deslocamento de um signo
linguístico para significar outra coisa”, o sujeito recorre a um modo enunciativo
que impõe “duplicidade de entendimento, para manter viva a regra geral social, e
assim, ele vai inocentando suas violações por mais habituais que sejam” (ibidem
2003, p. 44). Assim, diz Lages (2003), a linguagem do jornalismo sobrevive aos
conflitos dos deslocamentos de sentidos, abordando “as grandes e pequenas
questões da ideologia”, porque, segundo o autor, “não se faz jornalismo fora da
sociedade e do tempo histórico” (ibidem 2003, p. 42). Escamoteado na
indeterminação, o sujeito do discurso reformula o outro recorrendo aos signos
ideológicos e aos gêneros de discurso na diversidade das formas de escrituras
que o momento discursivo impõe.
Esta perspectiva encontra ressonância na visão dialógica, segundo a qual
os sentidos dados aos signos ressignificados e citados só pressupõem sentidos
se o interlocutor for capaz de conectá-los através da memória coletiva44 pelas
citações e os ditos anteriores e exteriores igualmente carregados de sentidos que
a ideologia hegemônica estabelece. Assim, o sentido no interior do enunciado
autoriza o tom do sentido do signo ideológico, pela memória coletiva, inteiramente
exteriorizada nas palavras e nos atos – isto é, na materialidade de onde se
derivam todos os contatos possíveis entre os sujeitos do discurso45.
Para se certificar como essa situação ocorre nas grandes classes de
gêneros discursivos do jornalismo cotidiano, os princípios teóricos norteadores
desta pesquisa recorrem às análises propostas por Moirand (2006), que
conduzem verificações, de forma perceptível, na ação de transmutação de signos
43
Uma linguagem capaz de descrever com precisão desde uma experiência científica, ou os resultados de
uma pesquisa, até os hábitos e costumes da vida selvagem, etc. (N.A.).
44
Neste caso, valendo-se também da inteligência artificial. ( N.A.)
45
Para o chamado círculo Bakhtin/Volochinov, o ponto que entrecruza as estruturas sócio-políticas e
ideologias é classificada de “psicologia do corpo social”, isto é, o lugar em que se encontra “justamente o
meio ambiente inicial dos atos de fala de toda espécie, e é neste elemento que se acham submersas todas
as formas e aspectos de criação ideológicas ininterruptas” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004, p. 42).
55
(MOIRAND, 2006) que o sujeito realiza quando articula enunciados entre suportes
midiáticos e que, para a autora, é onde ficaram registrados nas marcas de
mudanças (idem 2006) evidenciadas nas sucessivas publicações.
Na ordem dos princípios do dialogismo, é no contexto da vida e através de
signos ideológicos que o sujeito exterioriza a forma de comunicação e expressa
os mais diversos conteúdos, em diferentes modos de discursos, suportes e
gêneros de discurso (ZOZZOLI, 2015). Isto permite que, na observância da ação
do sujeito do discurso do jornalismo cotidiano, seja possível perceber as
transformações pelas quais ele submete o enunciado, para interligar elos de
sentidos entre o enunciado e a estrutura sócio-política e a ideologia hegemônica.
São ações capazes de evidenciar um sujeito discursivo e seu entorno social
discursivamente organizado.
Se por um lado, a memória coletiva, no contexto da psicologia do corpo
social (BAKHTIN/VOLOCINOV, 200), significa a palavra, é no dialogismo que se
dá a dimensão do enunciado concreto e real como o lugar onde se acumulam as
mudanças e os deslocamentos “quase imperceptíveis que, mais tarde, encontram
sua expressão nas produções ideológicas acabadas” (BAKHTIN/VOLOCHINOV,
2004, p. 42).
Isto quer dizer que, o sentido no interior do enunciado é matéria dos
“apelos de memória” (MOIRAND, 2006, p. 12) que a subjetividade das condições
discursivas do jornalismo colabora para dar forma e sentido à enunciação e à
intenção
ideológica
escamoteada.
Nesse
sentido,
o
chamado
círculo
Bakhtin/Volochinov (2004) grifa que “a consciência individual não é o arquiteto
dessa superestrutura ideológica, mas apenas um inquilino do edifício social dos
signos ideológicos” (ibidem 2004, p. 36). No caso desta pesquisa, as análises
dialógicas valorizaram o enunciado deslocado entre suportes (e a escolha do
tema), que alcançou os processos de transmutação objetiva de gêneros, nas
ocasiões em que discurso transitou e articulou de um enunciado a outro.
1.4 A genericidade da forma na composição do enunciado jornalístico
No subcapítulo precedente, ficaram estabelecidas duas assertivas: a de
que nas ocasiões discursivas do sujeito autorizado da mídia cotidiana, as
expressões semio discursivas, sob a pressão da ideologia hegemônica, tentam
56
trabalhar em cima dos sutis antagonismos ideológicos, intolerâncias e os conflitos
classes, para se estabelecer naquilo que lhe é próprio e importante na
comunicação da vida contemporânea. Na outra, constatou-se que na dinâmica
das complexas estruturas comunicacionais, a massa textual na mídia cotidiana
camufla sentidos, no interior do tema, valendo-se da forma enunciativa híbrida por
meio de apelos ideológicos.
Essas duas assertivas e o sentido que elas representam para o jornalismo,
coadunam com o sentido de genericidade de Adam e Heidmann (2004) que em
seus estudos relacionam o texto com categorias genéricas abertas e, nelas, os
autores reconhecem nesse contexto os efeitos de genericidade de maneira
indissociável de sua textualidade. No grifo de Adam e Heidmann (2004), “a
genericidade é uma necessidade sociocognitiva que liga todo texto ao
interdiscurso de uma formação social” (ADAM e HEIDMANN, 2004, p. 62) 46.
No destaque desta citação, fica claro que o jornalismo usa o sentido no
interior do enunciado para a efetiva potencialidade dos tipos genéricos, e que este
fenômeno discursivo se transforma no elemento essencial no texto para o
equilíbrio das tensões sociais, cujas associações cognitivas aglutinam de maneira
plena dois movimentos inerentes em qualquer interação discursiva: as condições
essenciais de produção e as finalidades discursivas das enunciações47.
Esta pesquisa adota os estudos de Adam e Heidmann (2004) como
orientação de análises, preservando os tipos genéricos discursivos na sua
versatilidade enunciativa e essencial para um diálogo social contínuo, valorizando
a plenitude de convergências e divergências enunciativas, sob a forma de
discursos que se ligam a outros pelo interesse do tema. Acompanhando as
afirmações dos autores, esses enunciados coabitam a forma expressiva e
evidenciam um convívio cultural relativamente mais complexo e organizado.
46
La généricité est une nécessité socio-cognitive qui relie tout texte à l'interdiscours d'une formation sociale.
Un texte n'appartient pas, en soi, à un genre, mais il est mis, à la production comme à la réceptioninterprétation, en relation à un ou plusieurs genres.
47
Zozzoli (2015) recorre a Adam (2005) para enfatizar que a instabilidade dos textos, e sua variação, chama
a atenção para a variação editorial. No artigo Gênero, Genericidade e Ensino (ZOZZOLI, 2015, v. , p. 18-37),
destaco o extrato que diz que, através da variação editorial, os textos conhecem existências diversas,
dependentes das representações que os editores fazem dos conhecimentos e das competências de seus
47
clientes-leitores (ADAM, 2005, apud Zozzoli 2015, p. 77).
57
Em Bakhtin (2003), os fios discursivos da massa textual cotidiana no
diálogo social são encontrados no “relato do dia-a-dia”, em conformidade com
“sua construção composicional” (ibidem 2003, p. 261). O próprio Bakhtin
acrescenta à construção composicional dois outros elementos indissolúveis
ligados ao todo do enunciado: o conteúdo temático e o estilo, que, segundo o
autor, são determinados por um dado campo da comunicação. Os três elementos,
se comparados à massa textual do jornalismo, deixam claro que o sentido no
interior do enunciado encontra relativa estabilidade característica da comunicação
jornalística e publicística.
Soma-se a isso, o caráter industrializado e tecnológico da produção textual
do jornalismo, que formaliza os processos enunciativos informativos nos meios
eletrônicos, para reforçar o cunho de atividade de comunicação de interesse
prático. Quando materializa gêneros discursivos afetados de sentidos, sob a
pressão da língua e de seus comprometimentos e submissões com a
materialidade histórica em jogo, a genericidade transforma a atividade do
jornalismo cotidiano num dos complexos campos de atividade de comunicação
humana.
Reconhece-se nessa atividade a maneira de se comunicar na sociedade
líquida (BAUMAN, 2004) – sujeitos acostumados a conviver no dia a dia com tipos
de enunciados extravagantes elaborados para o consumo, cujas estruturas
linguísticas se utilizam de recursos fraseológicos, lexicais e gramaticais próprios
do ambiente virtual por onde circulam tipos genéricos discursivos. Em
conformidade com as condições dialógicas dadas, tais condições se unem ao
“complexo problema da relação de reciprocidade entre linguagem e ideologia”
(BAKHTIN, 2003, p. 264). Nesse contexto, essas estruturas expressivas semio
discursivas podem dizer muito do sujeito, do lugar de onde ele fala e, sobretudo,
da sua intenção discursiva.
Na questão geral do gênero do discurso, desenvolvida no livro Estética da
criação verbal (BAKHTIN, 2003), vê-se que quanto mais dinâmica e elevada é a
vida da comunidade da fala e suas formas de sociabilidade, mais é “integral o
repertório de gêneros do discurso”, à medida que “cresce e se diferencia o modo
de interação discursiva” e à medida “que (ela) se desenvolve e se complexifica”
(ibidem 2003, p. 262).
58
Essa característica das condições de produção discursiva (forma/tema) da
mídia cotidiana e seus tipos genéricos de representações semio discursivas
concretas reforçam o cunho de comunicação de interesse prático (BAKHTIN,
1998). E através da voz autorizada, a voz de um terceiro, a ideologia hegemônica
vai dando conta dos sutis antagonismos ideológicos, das intolerâncias e dos
conflitos classes pela relativa estabilidade composicional que o enunciado e o
gênero discursivo propiciam.
No quesito genericidade, essa assertiva elimina de vez a ideia de que autor
do enunciado tem autonomia individual enquanto sujeito discursivo. O sujeito,
saturado por conflitos ideológicos, quando articula a língua e traduz signos em
conformidade e reciprocidade com a linguagem e a ideologia hegemônica,
empresta sua individualidade para dizer coisas que são ditas por outrem 48.
O gênero do discurso potencializa sua representação semio expressiva
através da performance da representatividade do material semiótico, cujo valor do
sentido está na relação entre o falante e o conteúdo do tipo genérico, ligados ao
sentido do conteúdo. Assim, nos propomos verificar, a partir do potencial de
genericidade presente no conteúdo do enunciado do jornalismo, as tensões
ocasionadas
pelos
sutis
antagonismos
ideológicos,
que
sinaliza
certa
estabilidade, que, camuflada, elimina toda e qualquer manifestação de
intolerâncias e de conflitos de classes. Porem observa-se que os conflitos
permanecem latentes nos não ditos.
Até chegar a esse ponto, o sujeito do discurso faz uso de uma variedade
de tipos genéricos e suas formas de sentidos tanto quantas forem necessárias
para assegurar certa regularidade enunciativa, na mesma proporção em que se
encontram inteiramente dependente e condicionada por ela (MOIRAND, 2006).
Nas análises desta autora, o enunciado, na condição de unidade real e concreta
dos processos de comunicação discursiva no jornalismo, ressignifica os signos
ideológicos para dar conta de um acontecimento que pode interessar a todos.
48
Para esclarecer essa afirmação, Authier-Revuz (2004) determina o outro coexistindo na pressão e nas
coerções da ideologia hegemônica, saturadas e inscritas no discurso relatado. No plano da frase, o outro
representa de maneira unívoca outro ato de enunciação. Fazendo uso de suas próprias palavras, ele remete
a um outro como fonte do ‘sentido’ dos propósitos que relata (ibidem 2004, p. 12).
59
Nela e aqui o sentido vai adquirir valor no instante discursivo 49 (MOIRAND, 2006,
p. 4) de dada publicação. Isto quer dizer que na essência enunciativa dialógica da
atividade de comunicação, esse elemento contextual é mais um propulsor das
mudanças e dos conflitos dos tipos genéricos discursivos em ação, podendo até
influenciar nas transformações que venham ocorrer (e ocorrem) na vida social de
um grupo discursivamente organizado.
Filiando a forma da massa textual do jornalismo cotidiano na mídia com a
“relativa estabilidade de determinados gêneros” (BAKHTIN, 1998), se verifica que
o sujeito autorizado assume função de “agente verificador”50 (MAINGUENEAU,
1997, p. 199). Nessas ocorrências, o sujeito do discurso dissimula as palavres de
outrem através das marcas de uma estilística individual quando recorre e se
apropria das “palavras de outrem” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004), para dizer
coisas que são ditas por outrem.
Refletindo sobre esse comportamento discursivo, verifica-se ainda em
Bakhtin (1998), que tais condições de produção discursiva estão diretamente
associadas à relativa organização e desenvolvimento social de dada comunidade
discursiva. Em suas explanações, Bakhtin conta que quanto mais o sujeito e a
comunidade experimentam atravessamentos ideológicos tanto mais a língua
exige do sujeito discursivo costuras de sentidos nos limites do contexto social.
Assim, guardadas as devidas proporções, mais uma vez se verifica que
quanto mais o sujeito enunciador se coloca sob a forma da indeterminação e se
transforma em fiador de validades (MAINGUENEAU, 1997) tanto mais intensa
diferenciada e elevada é a vida do grupo social ao qual ele está inserido – isto
quer dizer que é possível que o potencial de genericidade também possa vir a ser
encontrado em abundância nas palavras de outrem no interior dos discursos
citados ou narrados, sobretudo, no contexto da exteriorização.
49
Segundo relatos de Moirand (2006), no discurso midiático, um acontecimento surge na mesma
proporcionalidade que desaparece. Mas, diz a autora, alguns se repetem em intervalos mais ou menos
regulares. São essas repetições que caracterizam os instantes discursivos, são eles que identificam a
complexidade dinâmica dos circuitos de comunicação midiática através da sua inscrição na materialidade
textual da noticia.
50
Maingueneau considera agente verificador aquele que vai até a fonte da informação com o intuito de
reproduzir o fato, para dialogar pelas palavras com todos os graus variáveis de precisão e imparcialidade.
60
Essa dimensão dialógica exige do sujeito autorizado na mídia cotidiana,
que ele esteja sempre em busca da “significação primordial para a criação de uma
imagem da língua” (BAKHTIN, 1998, p. 156), para ajustá-la no interior das
complexas estruturas comunicacionais dos tipos genéricos e nas enunciações
ressignificadas e cheias de apelos ideológicos. Nos relatos de Bakhtin (1998;
2003) é o gênero estruturado numa dada situação de discursividade que chama
pra si a responsabilidade da representação da linguagem.
Com base nesses conceitos, verifica-se, aqui, que nas condições de
produção discursiva do jornalismo, o potencial de genericidade estabiliza uma
linguagem representada referenciada na dinâmica do diálogo social e da
comunicação, porque se nutre do potencial que o gênero do discurso significa.
Depara-se com uma linguagem que tende ressoar em si e ao mesmo tempo fora
de si, para falar de si e falar consigo mesma, como objeto de representação.
1.5 A forma híbrida da nova estética gráfica do gênero narrativo informativo
Para entender em que medida a expressão semio-discursiva estabiliza a
linguagem hipertextualizada, no contexto do jornalismo, esta pesquisa procurou
estabelecer no diálogo social (BAKHTIN, 2003) em jogo os diversos módulos de
linguagens que se completam para garantir inteireza e sentido na totalidade da
massa textual. Nesta parte do estudo, tenta-se relatar quais os tipos de linguagem
são verificados na massa textual do jornalismo e as respectivas funções de
sentido que elas apresentam no interior do enunciado.
Para delinear os registros de transformações da massa do texto
informativo, recorre-se outra vez Moirand (2006), que, em suas análises,
estabelece sentido no interior do discurso através do potencial semiótico, textual
ou enunciativo em diferentes modos de linguagens. Por sua vez, nos planos do
diálogo social (BAKHTIN, 2003) do jornalismo serão observados os tais
procedimentos constitutivos distintos. Como parte integrante de uma nova
dimensão
narrativa, se
comparada ao modelo
do texto impresso,
na
especificidade dessa condição discursiva, indica-se as letras, os gráficos e as
imagens funcionando como elemento composicional complementar do sentido no
interior do enunciado informativo, cuja objetividade é o deslocamento do foco da
61
leitura em direção ao sentido do conteúdo da informação 51. Esses elementos se
organizam e se completam no interior da massa textual para valorizar a
informação.
Nos registros de Chartier (2002), tais soluções estéticas de linguagem que
foram absorvidas do jornalismo impresso e no ambiente virtual configuram uma
nova estética gráfica (Ibidem, 2003, p. 82). A textualidade eletrônica se reveste de
uma linguagem técnica que, segundo o próprio autor, representa uma revolução
da técnica da produção de textos, que conta com o auxilio dos novos suportes de
escritas – suportes estes que estão revolucionando as práticas de leitura.
Retomando Lages (2003), é visto nos relatos deste autor que a linguagem
gráfica do jornalismo impresso recorre a elementos de linguagem escrita e de
imagens, com a preocupação em constituir conceitos de respeitabilidade e
confiabilidade do produto colocado à venda. Por razões óbvias, respeitabilidade e
confiabilidade são duas das questões que mais inquietam as empresas de
comunicação de massa, credenciais que elas demonstram grande interesse de
dominar e preservar.
Nos escritos de Moirand (2006), o valor de sentidos da linguagem do
jornalismo está diretamente associado aos apelos de memória (ibidem 2006, p.
12). Isso valida essa nova estética gráfica, cujo significado das cores e dos corpos
das letras é igualmente pleno de simbologias ideológicas e é responsável também
por estimular e induzir sentidos impregnados de fortes implicações emocionais. O
jornalismo destaca e valoriza os acontecimentos, através de temas do cotidiano
que abrangem desde as abordagens político-econômicas, por exemplo, até as
informações de maior impacto para a vida do outro, no sentido positivo ou
negativo.
Orientada por essa teorias, a pesquisa inscreve a nova estética gráfica do
gênero de discurso do enunciado informativo do jornalismo na categoria do
gênero discursivo de caráter híbrido. Essa inscrição se baseou, inicialmente, na
forma mestiça composicional, onde se registram a presença de várias linguagens
sociais, refratadas nas pressões e coerções ideológicas, e nos diversos recursos
de linguagens, a exemplo das imagens, das cores, dos tipos de corpos, etc.
51
Cf. citação de Lages (2003) na p. 45.
62
Foram consideradas nessas análises, as referências em que Bakhtin (1998)
descreve os gêneros discursivos híbridos, que, nas condições dialógicas, se
encarregam dos procedimentos formais como objeto do discurso, orientando para
a imagem da linguagem em referência do tema que o sujeito da fala relata.
Segundo o autor, o uso social de linguagens híbridas e sua presença no plano do
diálogo social determina o contexto exteriorizado e representa “uma das
modalidades mais importantes da existência histórica e das transformações das
linguagens” (ibidem 1998, p. 156).
Submetidas à teoria do dialogismo, constata-se que as afinidades entre a
expressão semio discursiva do jornalismo em favor do caráter do gênero híbrido
vão além dos ajustes da nova estética gráfica e sua construção histórica material.
Mas, através das referências teóricas admitidas nesta pesquisa, essa construção
histórica material é responsável também por relativizar e estabilizar os sentidos no
interior do enunciado, escamoteando as marcas de saturamentos de vozes
alheias e as consciências linguísticas envolvidas, dissimuladas na rotina da
dinâmica da informação com relação ao repertório de temas do cotidiano.
Explicando melhor essas afirmações, tomam-se, aqui, como referências
ainda o fato de que a indeterminação do sujeito (MAINGUENEAU, 1997) e
existência das palavras de outrem (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004), presentes
nas formas semio-discursivas dos relatos jornalismo, são os responsáveis por
refletir “os domínios da vida e da criação ideológica” (BAKHTIN, 1998, p. 139),
onde a forma e o sentido no interior do discurso escamoteiam a intenção
discursiva e revestem de sentido a palavra alheia no interior do gênero, ligando-o
ao plano do sentido e da expressão. Isto leva a crer que na produção discursiva
do jornalismo cotidiano, as composições híbridas, sempre serão a convergência
de várias consciências linguísticas.
Consorciando esses comentários a estrutura composicional do enunciado
do jornalismo, têm-se os termos da hibridização do enunciado atuando como
refratores da realidade mostrada, quando transmite a palavra de outrem,
submetidas às condições da comunicação de transmissão de interesse prático.
Isso permite que ocorram transformações das formas do discurso midiatizado
relacionadas à massa textual informativa. Além disso, retomando Bakhtin (1998 e
2004), toda compreensão da fala viva no enunciado vivo “liga-se à questão de
63
saber como a realidade determina o signo, como o signo reflete e refrata a
realidade em transformação” (BAKHTIN, 2004, p. 41).
Com bases nessas orientações teóricas, foi feito o recorte das
características singulares de sua composição na massa de textual do jornalismo,
e o registro avaliando o potencial semiótico textual enunciativo que teceu sentido
no interior do discurso através do diferentes modos de linguagens dentro e fora do
texto. Neste caso, foram descartadas as linguagens das cores e os tipos de letras
como elementos constitutivos desse sentido e como balizadores e estabilizadores
das medidas dessa linguagem representativa. Embora tenhamos considerado, no
contexto da mídia cotidiana, que no diálogo social em jogo, os diversos módulos
de linguagens se completam para garantir inteireza e sentido na totalidade da
massa.
Foi sobre a base desses fundamentos teóricos, que a pesquisa procurou
construir uma interpretação não linguística sobre as marcas linguístico-discursivas
que o sujeito da pesquisa recorre quando transportou enunciados de um suporte
para outro. Condições analíticas que só podem ser explicadas por meio de uma
abordagem não apenas fixadas na materialidade linguística, mas no conteúdo
inscrito no jogo de sentido presente no dialogismo.
64
Seção 2
2 Organização metodológica
Este trabalho é uma interpretação possível de atos culturais sob a ótica do
dialogismo (BAKHTIN, 2003), através de conceitos que encaminham pesquisas
numa perspectiva sócioideológica. Nesta pesquisa, procura-se abordar as marcas
linguístico-discursivas do sujeito jornalista, as que ele deixa quando transporta
enunciados informativos de um suporte para outro, para classificar os recursos
linguístico-discursivos que ele emprega e em quais situações ele assim o faz.
Uma abordagem analítico-discursiva que envolve autores sociais construindo
conhecimentos sobre práticas de comunicação social no discurso do jornalismo
informativo na internet, para se materializar como resultado de uma experiência
de compartilhamento de ideias, constituída pelo saturamento de vozes alheias.
Em termos metodológicos, para evitar análises empíricas e abstratas, o
campo de pesquisa foi inserido num contexto plurilinguístico e intercultural,
percorrendo seus próprios caminhos e tirando suas próprias conclusões. Sob o
efeito contemporâneo da comunicação mediada, procuramos solucionar o
problema da complexidade do campo estudado e evitar análises discursivas
dialógicas sobre a comunicação midiatizada em que tudo pode se constituir em
massa textual e sujeitas a todo tipo de análises.
Com a preocupação de preservar concreto e preciso, para ser capaz de
relatar os aspectos da vida social esse estudo parte da organização metodológica
de pesquisa no campo das análises do discurso em L. A. contemporânea, e como
já foi dito, interagindo através de diálogos com áreas do conhecimento que se
envolvem com o uso social da linguagem na interação conectada. Mais de uma
vez recorre a mestiçagem teórica 52, buscando maneiras singulares de produzir
inteligibilidade sobre língua e linguagem na contemporaneidade, na vibração e em
sintonia com vozes de outrem.
Este é o registro do processo histórico material da comunicação social
consequente de um mundo multicultural e mundializado, assolado por sucessões
de fatos transformadores e pela experiência de ideologias intermediárias, em que
52
Conforme conceito apresentado na p. 11.
65
foi trabalhado um conceito sobre comunicação contemporânea e se ponderou
sobre as mudanças radicais na forma de ser, pensar, agir, a partir do registro dos
modos de sociabilização dos sujeitos do discurso na atualidade.
O mundo conectado por mídias de comunicação de massa (analógicos e
digitais) reproduz um novo tipo de sociabilidade, um meio ambiente onde as
comunidades virtuais se organizam sobre uma base on line de informação e
nesse espaço o sujeito aprende a falar, ler e escrever na complexa relação entre
o ser e um sistema de comunicação telemático. A cibernética hominiza o
instrumento, nos adapta ao novo, e incute a ideia da tecnologia no interior do
pensamento do sujeito do discurso. Na dimensão da comunicação social,
movimentos de interação se complementam e se contrapõem sobre as bases de
uma estrutura interativa de conhecimento.
Na perspectiva de um conjunto metodológico organizado que contribua
para materializar as formas de discursividades hoje, reorganiza-se aqui um
paradigma metodológico que tenha um caráter próprio, a ser aplicado nesta
pesquisa, em que as questões particulares – nesse estudo, relacionadas ao uso
da linguagem atual – sejam tratadas nas condições de produção que venham
ocasionar nessa pesquisa. Neste caso, analisar os procedimentos linguísticodiscursivos aos quais o sujeito da pesquisa recorre no momento que transporta
um enunciado de um suporte para outro.
As situações discursivas recortadas nessa pesquisa serviram para
observar os impactos das grandes transformações discursivas e sociais; que
proporcionaram vivenciar situações que afetaram também o conhecimento real e,
diretamente, o meu modo de avaliar o que é produzir conhecimentos. Nas
instabilidades das experiências antropológicas, na qualidade de sujeito do
discurso envolto de inseguranças e incertezas, vou a campo me questionando: o
que acontece quando o sujeito pesquisado faz uso de recursos linguísticodiscursivos para transportar enunciados informativos de um suporte digital para
outro?
A resposta, do ponto de vista do materialismo histórico, requer um
encaminhamento dialético de um sujeito que se relaciona com seu entorno e que
pela necessidade de interagir trata a língua como uma realidade social. O sujeito
66
realiza análise no valor e na natureza social do enunciado, em sintonia com as
estruturas sociais dadas. Posiciono-me na condição de pesquisador como um
sujeito do discurso de ativa posição responsiva frente à vida e os fatos da vida,
que interage com o seu tempo e se comunica através de variadas formas; ao
mesmo tempo, em que lida com os conflitos da língua na mesma dimensão com
que lida com os conflitos de classe sociais. Isso implica dominação, resistência e
adaptações às novas maneiras de se comunicar.
Na perspectiva dos princípios organizadores do conhecimento de Morin,
nos estudos da linguagem na contemporaneidade, o sujeito da pesquisa constrói
conhecimento quando é “capaz de situar qualquer informação em seu contexto e,
se possível, no conjunto em que está inscrito” (MORIN, 2009, p. 15). Essa é uma
perspectiva híbrida do conhecimento reestruturado, que permite o sujeito do
diálogo contemporâneo trabalhar com possíveis ligações singulares entre
saberes, tipos e sentidos, enquanto lidam com novos mecanismos de leitura
/escrita e formas de pensar, e de construir e significar sentidos através da
máquina.
As informações desta pesquisa foram coletadas num intervalo de seis
meses, durante encontros que não ultrapassaram o tempo de duas horas. Nos
procedimentos etnográficos, adotamos os seguintes elementos de pesquisa:
anotações de campo (ou diários); também a geração de registros; isto é,
entrevistas, com perguntas sobre ações e atos anteriores ou posteriores ao
evento; e gravações de áudio e vídeo dos padrões que envolveram as ações do
sujeito investigado. Acrescentei a esses dois elementos, o armazenamento digital
dos enunciados postados no Twitter para posteriores análises.
A estratégia procura atender a organização teórico-metodológica proposta
nesse estudo. Consideramos que os elementos de pesquisa conseguiram
constituir uma massa de dados híbrida, mestiça e transdisciplinar, com
competências e procedimentos de interpretação dos fenômenos de produção
discursiva, graças aos cruzamentos transdisciplinares. Assim, conseguimos
incorporar valor aos registros obtidos nas observações das transformações
linguageiras da realidade abstraída.
67
Abrigada sob os princípios de análise dialógica em L.A. contemporânea, a
pesquisa, por meio de uma alteridade baseada nas relações de identidades
globais e locais, busca na proximidade da experimentação da vida de outros, os
lugares de seus saberes e de onde falam. Isto implica e propõem a adoção
urgente de novos traços inusitados de renarração e redescrição dos fatos da vida.
Viver assim, pensar assim e construir saberes assim é, sem dúvida, uma
experiência fluida e instável, mas, que, ao mesmo tempo, é positiva e
desafiadora. Quando se fragiliza o mundo e as certezas, e se arrisca desafiando o
novo, a atenção se desvia para novas propostas de reescrever a vida, na
inseparabilidade do acontecimento, da informação e do conhecimento em relação
ao eu, ao outro e ao meio ambiente cultural, social, econômico, politico, etc, etc.
Nos princípios fundamentais da L.A. Contemporânea e suas bases
multidisciplinares, a linguagem é a porta de entrada para novas percepções da
vida social. Sobre as bases desses princípios metodológicos, desaprendendo
novos sentidos e novos modos de produzir conhecimentos, isso implica ainda
enxergar vida e linguagens na forma ativa, e fazer uso dessa visão para dizer algo
sobre o mundo.
Para
esse
estudo,
optamos
por
um
diálogo
entre
pragmáticas
correlacionadas e criar um cenário propício de trabalhar uma translinguística 53 na
prática de conhecimentos e saberes relativos às interações e às expressões do
sujeito do discurso em suas vivências socioculturais na atualidade. Do ponto de
vista da L.A. contemporânea, arrisca-se em novas narrativas de representações
de mundo, materializando formas e pronunciamentos de linguagens constituídas
na e das práticas sociais.
Se a base do dialogismo é, sobretudo, se comunicar, e que “a linguagem
só vive na comunicação dialógica daqueles que a usam” (BAKHTIN, 1998), nos
referenciais do dialogismo de Bakhtin (1998 e 2003), toda a fundamentação teoria
discursiva está no diálogo social, é aí em que está contida toda compreensão da
situação imediata e medita envolvida na interação. O diálogo existe na ação
interrelacional e dependente do sujeito com o grupo social ao qual pertence; e nos
temas sociais que motivam práticas discursivas através das zonas de
negociações e de contato.
53
Cf. p. 10.
68
Nos processos metodológicos transdisciplinares, como os adaptados neste
estudo, novos sentidos pressupõem sentidos através das ligações entre saberes.
O sujeito na ação individual interativa e na relação bilateral com o contexto
exteriorizado assume seu papel na produção responsiva ativa54 (ZOZZOLI, 2006),
promovendo estranhamentos e encontrando respostas frente à vida social. No
contexto do cotidiano do jornalismo informativo, a pesquisa encontrou na L.A.
contemporânea a essência da integralização entre disciplinas correlatas, o que
fez esse estudo se posicionar criticamente frente à materialidade histórica dada,
preocupado em compreender e esclarecer a complexidade das questões que
forram trabalhadas na pesquisa.
Nesse panorama de citações teóricas conceituais emprestadas, sob o
guarda-chuva da L.A. contemporânea, nos concentramos em investigar as
estruturas semio-discursivas que o sujeito constrói e que foram recortadas de
uma dada forma enunciativa em circulação nos suportes midiáticos. Analisando
as expressões semio-discursivas, a pesquisa se concentrou na ação de um
sujeito que age discursivamente atormentado pelo desejo incondicional de se
conectar e consumir, lidando com a sensação de mundo contraído, na memória
coletiva de uma inteligência virtual.
Deste lugar, estranhou-se a performance do diálogo social no Twitter, na
atividade comunicação se verificou movimentos de interação de interesse prático
– uma performance submetida e condicionada a sua materialidade histórica e as
condições
discursivas
socioeconômicas.
Numa
experiência
antropológica,
buscou-se integralizar a ação singular do sujeito da pesquisa, a partir da maneira
como ele lida com a estrutura da textualidade eletrônica55, com as ações
relacionadas aos efeitos de comunicação de interesse prático jornalismo cotidiano
da mídia.
54
Em Zozzoli, o lugar de produção responsiva ativa é a continuidade da compreensão do texto para além da
forma de produto, através de processos da interação verbal e não verbal e não se inclui na materialidade dos
textos (2006 p 118).
55
Resgato o sentido de textualidade eletrônica em Chartier (2002), que o autor classifica como uma língua
que de maneira incondicional age numa permanente busca por um idioma universal, aspirando um mundo
sem fronteiras – a face cruel dessa língua é o desprezo pela diversidade de lugares, coisas, indivíduos e
línguas ainda presentes no mundo real.
69
Procuramos reconfigurar e reinterpretar, sob o risco da (in)certeza das
“práticas” e “atitudes” (LÉVY, 2000), os modos de agir do sujeito do discurso
autorizado a falar pela produção de enunciados informativos em circuitos
conectados. Na realidade material do movimento de comunicação no Twitter, nos
enunciados que ele faz circular, observamos os processos de produção
discursivas do sujeito da pesquisa, quando se comunica através do aplicativo.
É pelo diálogo social globalizado que se pretende, no cruzamento de
disciplinas correlatas e no jogo de pressuposições de sentidos, analisar esses
fenômenos sociointeracionais na situação em que eles ocorreram. Com esses
dados, que se apresentaram na singularidade desse estudo, procurou-se
descrever e interpretar, na ação do sujeito do discurso, o fenômeno de
transformação de enunciados entre suportes quando se articula com gêneros
diversificados e se adapta aos diferentes suportes existentes nas conexões de
redes sociais.
São caminhos pelos quais esta pesquisa procura evidenciar as
especificações do uso sociocultural do enunciado e do diálogo social no Twitter,
concentrado inicialmente na observação da/s ação/ões e no/s processo/s que se
desenrola/m no momento de construção do enunciado, em conformidade com a
estrutura semio-discursiva do aplicativo. O interesse, aqui, se estende também na
forma que o modo discursivo se transmuta em gêneros diversificados, num
contexto da comunicação de interesse prático.
Com base nessas premissas, esta investigação procurou fazer uma
reflexão sobre a especificidade do gênero do discurso no Twitter para encontrar
respostas que atendam as necessidades imediatas das questões de natureza
sociocultural de seu uso. Ao final, pretende-se apresentar uma abordagem que
contribua com os estudos sobre a mobilidade dos enunciados e os gêneros do
discurso em atividade, hoje.
2.1 Reflexões da pesquisa: condições de produções discursivas
Inicia-se aqui a parte mais empírica da pesquisa que vai do linguístico ao
não linguístico, para dar sentidos a massa de dados estudada. Nesta parte do
trabalho, é feita uma descrição sobre a condição de produção, isto é, são relatos
sobre o meio e o ambiente onde o sujeito pesquisado operou enunciados, na
70
inseparabilidade das transformações que os enunciados sofrem quando são
articulados entre suportes digitais – com ênfase na singularidade de práticas e
atitudes de sujeito autônomo produtor de enunciados.
Neste ambiente de produção discursiva do jornalismo cotidiano, foram
observadas e ordenadas ainda a relação entre o acontecimento (a matéria prima
que chega à redação) e os caminhos de evolução da notícia, até alcançar a forma
de expressão semio discursiva hiperestruturada, para ser postada no Twitter. Um
processo mecânico que o sujeito pesquisado realiza no esforço de estabelecer
um “eu” relativamente autônomo nas suas construções enunciativas. Esse
caminho percorrido foi essencial na definição do objeto do discurso a ser
analisado.
A segunda parte deste capítulo se concentra em fazer análises sobre os
enunciados procurando ajustar a massa de dados obtida aos processos e
problemas de uso da linguagem, na essencialidade interpretativistas (MOITA
LOPES, 2006) das análises discursivas dialógicas em L.A. contemporânea.
É importante relembrar aqui que este processo investigativo esteve todo
tempo comprometido com os paradigmas de uma pesquisa etnográfica
colaborativa de cunho interpretativista, concentrada na forma do enunciado, nas
condições de produção discursivas, para recursar o caráter do interdiscurso no
interior do enunciado em jogo; condições que se procurou relacionar com as
ações do sujeito enunciador autorizado da mídia cotidiana e que são
contundentes para o relato do diálogo social em processo no Twitter.
As análises se concentraram nas reflexões nas práticas e atitudes (LÉVY,
2000) de produtor de enunciados do sujeito pesquisado, abrangendo os níveis de
sua organização textual no virtual (CHARTIER, 2002 e LÉVY 2011) no jornalismo
cotidiano, no qual é comum haver intensa atividade de formulação e reformulação
de uma mesma unidade discursiva (MOIRAND, 2006), sob a visão do dialogismo.
Neste contexto, foi possível compreender e relatar o discurso que interage com
outro discurso, para constituir outro discurso.
No sentido de estabelecer uma ordenação paradigmática à dinâmica das
reflexões que serão apresentadas a seguir, o relato foi dividido em duas partes: a
primeira se constitui numa narrativa sobre a materialidade histórica da pesquisa;
isto é, uma narrativa de cunho etnográfico sobre as práticas do sujeito envolvido
71
com a pesquisa, o que ele fez e disse sobre seus atos de produção da massa
textual, onde se procurou destacar as nuances da singularidade de uma prática
de enunciação. Privilegiou-se adotar uma narrativa cronológica dos fatos, dando
ênfase àqueles fatos mais relevantes ao contexto da situação investigada.
Na observância das suas ações, quando faz uso de palavras que foram
ditas por outro, num segundo momento, procurou-se compreender para relatar os
constructos dos escritos que ele privilegiou nos seus enunciados. Preferiu-se
adotar uma descrição não linguística da estrutura composicional do enunciado a
partir do que Moirand estabelece por fios interdiscursivos (MOIRAND, 2006, p.
15); isto é, foi feita uma análise sobre a forma composicional do gênero que se
articula com outro/s gênero/s discursivo/s e suporte/s digital/is numa mesma
hiperestrutura, que o sujeito teceu através de signos e sequências discursivas, ao
relatar um fato, uma ação e/ou um acontecimento. Aqui, o gênero do discurso foi
inventariado através de um constructo não linguístico.
Neste momento, foram valorizadas as ocasiões em que o enunciado se
sujeita as etapas composicionais de expressões semio-discursivas, através do
processamento interno da máquina de leitura 56. Nessas ocasiões, o enunciado
eletrônico virtual sofre uma permanente ação de escritas e reescritas de temas
sociais (MOIRAND, 2006), prevendo garantir estabilidade do diálogo social e
maior abrangência do entorno dialógico.
A investigação considerou a singular habilidade de sujeito do discurso,
produtor
de
enunciados
ideológicos
e
expressões
semio-enunciativas
hipertextualizadas, de garantir valor e sentido ao divulgar informações,
transmutando o enunciado de um suporte digital para outro. Ocasiões que
autorizaram reflexões sobre a livre percepção analítica do sujeito pesquisador nos
momentos vivenciais e, posteriormente, a partir da massa de dados obtida, foram
fundamentais aos relatos “das ocorrências composicionais” (ADAM e HEIDMANN,
2004) de formulações e reformulações da massa textual, as quais os enunciados
foram submetidos.
56
Relembrando que, para Levy (2011) a máquina de leitura é um dispositivo de apresentação virtual, uma
tela eletrônica onde são apresentados textos estruturados em rede, que se realizam sob o efeito com outros
usuários, ou links.
72
2.2 Narrativas etnográficas de uma situação do uso social da linguagem no
Twitter
Para garantir precisão analítica, limito minha realidade discursiva no recorte
do objeto do discurso das formas semio-enunciativas existentes nos diálogos
mediatizados em circulação no perfil do Twitter de um site de notícias. Deparo-me
com o outro, o sujeito do discurso na condição de sujeito dialético, cuja totalidade
se dispõe a se ajustar às pretensões investigativas deste estudo. E nesse lugar
de intensa produção discursiva, pela condição de eu sujeito e ele sujeito, numa
situação de comunicação parcialmente interessada (BAKHTIN, 1998), faço o
registros da dinâmica enunciativa de enunciados que o sujeito pesquisado faz
circular na internet.
Encontro o sujeito fazendo buscas na minha lista de amigos jornalistas de
uma rede social. Mando para cada um duas perguntas: você usa o Twitter? Com
que finalidade? Berg (nome fictício) foi o único que respondeu às duas questões.
Encontro Berg num lugar de intensa atividade enunciativa no jornalismo cotidiano
da mídia digital – ele trabalha na função de repórter e redator produtor de
conteúdo para um site de notícias na internet, do qual é o proprietário. Para dar
conta do volume de atividades diárias, Berg acumula ainda as funções de
pauteiro, cobre eventos, depois ordena os fatos, escreve enunciados, registra
imagens, redige a informação, edita a massa textual e a posta.
Todos os dias, Berg lida com uma parafernália tecnológica eletrônica e
digital de escrita, leitura e registos de imagens, onde ele se alimenta de
fatos/acontecimentos, para fomentar a curiosidade pública que frequenta o site.
Na condição de sujeito do discurso, todos os dias, ele realiza um trabalho
mecânico de idas e vindas ao ambiente virtual, onde ele recebe informações,
consulta fontes disponíveis, para inicialmente dar relativa relevância a
determinado tema que lhe é enviado; só depois ele impõe ao acontecimento as
formas expressivas semio-enunciativas do modo informativo da mídia cotidiana
digital. Isto é, transforma acontecimentos do dia a dia em informação jornalística.
Um fazer diário onde ele aborda o significado do tema, através de discursos
constituídos, na prática ordinária, pela relação, a interpretação e na apreciação
(MOIRAND, 2006).
73
Pertencentes à mesma área, vivendo no pequeno universo de jornalistas
profissionais, era impossível não conhecê-lo antecipadamente. Essa proximidade
foi fundamental para que ele aceitasse participar desse trabalho investigativo.
Mas, de sua parte, havia interesses outros, que serão revelados mais adiante.
Depois de algumas trocas de mensagens virtuais, um encontro, muitos verbos e
explicações dispensados, acabei conseguido sua adesão na investigação 57.
Por minha vez, na condição de sujeito dialógico, pela vivência subjetiva da
situação social, experimentei fazer da linguagem e suas construções a expressão
da relação recíproca, no todo do complexo ambiente social (BAKHTIN, 2001, p.
80) em que se desenvolveram as nossas negociações.
Sobre seu interesse em participar da pesquisa, percebi desde o início que
Berg queria aproveitar a oportunidade para atualizar tudo o que sabia e fazia nas
ações de interações sociais no ambiente virtual de hoje. Por trás dessa intenção,
havia ainda um interesse pecuniário. Essa observação confirmou-se inúmeras
vezes durante seus pronunciamentos ao longo do processo investigativo. Em
síntese, Berg queria usar o poder da interação no ambiente virtual para se
atualizar, verificando o que se passa no seu entorno digital e, ao mesmo tempo,
virar referência para os frequentadores do aplicativo. Segundo Berg, isso seria
bom para os negócios, porque abriria canais para futuras parcerias comerciais.
2.3 A inserção no campo da pesquisa
O início das investigações
O primeiro contato que tivemos na condição de sujeito pesquisador e
sujeito pesquisado se deu no dia 5 de janeiro de 2016. Sujeitos envolvidos com
pesquisa, seus atravessamentos ideológicos e com seus lugares historicamente
definidos, experimentando o primeiro momento vivencial. O encontro foi
combinado na redação do site, um ambiente doméstico, improvisada e mal
acomodada na sala de uma residência. Ali, se apertavam sobre uma bancada em
forma de L dois computadores (um deles parado), um notebook, livros, CDs,
blocos de escritas e muitas peças publicitárias que as assessorias de
comunicação distribuem. Era o lugar onde, diariamente, Berg constituía discursos;
57
Os documentos que comprovam sua adesão à pesquisa encontram anexos.
74
dando forma e sentido da escrita jornalística para o ambiente de site na Internet.
É quando ele, como parte de suas atividades cotidianas, elabora num intrincado e
complexo jogo de formulação e reformulação de enunciados do jornalismo na e
para a mídia cotidiana.
Berg disse que em certas ocasiões, para ampliar os entornos dos
enunciados postados no site, recorria às redes sociais tentando dinamizar seus
processos de interação mediada entre ele e seus interlocutores potenciais (que
nesta pesquisa recebem o tratamento de leitores/seguidores à distância). Neste
meio e ambiente de sujeito do discurso na mídia cotidiana, Berg experimenta
colocar a si mesmo sob determinada norma social, na experiência da socialização
de si mesmo e de suas intenções discursivas. Nessas ações mecânicas de
escritas de Berg, foram encontradas problemáticas nas formas composicionais
dos enunciados, referentes ao gênero e que se assemelham a certos postulados
do dialogismo.
Neste dia, numa postura etnográfica, planejei observar os processos
materiais que Berg executava para construir enunciados na máquina de leitura;
sempre atento à riqueza de detalhes. Naquela oportunidade, me interessava
saber, na singularidade de seus atos, como ele definia o tema, como constituía
um enunciado de escrituração jornalística, postava a massa semiótica no site e
depois articulava o enunciado com o Twitter.
Berg disse (não mostrou) de que maneira automática abria sua caixa de email, lia e selecionava mensagens com sugestões de pauta. Em seguida, fazia
uma lista de temas que iria valorizar baseada num critério pessoal, o feeling
adquirido nos anos de trabalho, o ajudava identificar acontecimentos que
poderiam despertar o interesse da maioria dos leitores. Após esse processo de
seleção, Berg explicou que faz consulta a fontes para obter mais dados sobre os
assuntos escolhidos, pesquisa imagens na rede e, às vezes, se desloca até o
lugar do acontecimento; ocasiões em que ele também faz registros imagéticos.
Após retornar à redação, se dedica a “descrever, dizer ou explicar os fatos da
vida” (MOIRAND, 2006) para serem postados no seu site.
Neste primeiro encontro, observando e analisando as ações de Berg,
atento os seus dizeres, percebi, sob a fachada da atualização, o intenso
movimento de expressões semio enunciativas que a escrituração jornalística faz
75
circular da mídia cotidiana – enunciados de estrutura de sentidos parcialmente
inacabados. Para isso, o sujeito do discurso do jornalismo conta com uma
arquitetura mnemônica de onde cria interfaces com outros sujeitos do discurso.
Isso, sob a ótica de Lévy, “equivale constituir-se” (LÉVY, 2011, p. 37) – num
esforço de constituir significação do que vem do outro, e que os fios do discurso
materializam redes intelectuais interligando autor e leitor por temas de interesse
comum.
Verifico, também, na ação de escrituração de Berg, nas construções
enunciativas informativas no interior do discurso, manifestações de palavras ditas
por
outrem
definindo
o
tema
para
constituir
sentidos.
O
enunciado
hiperestruturado comunica quando desperta recordações (MOIRAND, 2006),
sinalizando para os sentidos no interior de uma unidade discursiva dirigida a um
auditório social imediato e mediato. Nos relatos de Moirand, a autora enfatiza que
no diálogo social da mídia cotidiana, saturado de vozes sociais, somente alguns
leitores serão capazes de constituir-se na significação do outro e na referência
discursiva ideológica em jogo.
Neste primeiro encontro não foi possível presenciar os atos e ações de sua
performance enquanto sujeito do discurso da mídia. Berg havia atualizado o site
na manhã daquele dia e a tarefa de relacionamento nas mídias sociais ele
delegava a um estagiário do site. Decido, então, aplicar a entrevista com
perguntas exploratórias (ver anexo nº 1) com a intenção de sedimentar uma base
material e histórica em torno das informações que Berg detinha sobre o aplicativo
e sua maneira de operar essa cadeia interativa.
Revisando suas respostas, ficou claro que até aquele momento o contato
de Berg com o Twitter era superficial. Segundo seu relato, ele sabia que se
tratava de uma ferramenta de interação digital muito usada por jornalistas, cuja
característica importante era o desafio da síntese – isto é, construir uma
mensagem inteira e acabada numa caixa de texto limitada a 140 caracteres.
Disse que quando recorria ao aplicativo, no momento que articulava o enunciado,
preocupava-se em manter a essência do conteúdo, procurando adaptá-lo a caixa
de escrever do aplicativo; a ideia de recorrer ao Twitter era atrair seguidores para
o site. Se o site fosse muito frequentado poderia atrair parceiros de publicidade;
76
no
caso,
investidores
com
dinheiro
para
subsidiar
as
despesas
de
operacionalidade da empresa e para remunerar também o seu esforço.
Questionei sobre o que era mais importante para ele participando de um
projeto de pesquisa focado Twitter. Berg respondeu que a experiência da
pesquisa, o tempo dedicado a ela, seria um aprendizado; que, dizendo em outras
palavras, desejava fazer parte do jogo do diálogo social no Twitter, e aprender a
ser mais atraente nas redes sociais. Repetiu que queria ter sucesso e
reconhecimento para ele e para
a empresa; que para seu pequeno
empreendimento isso era importante e para sua força de trabalho também.
Entendi que o que ele gostaria mesmo, ao final do processo, era ter em
mãos um tipo de manual de autoajuda com dicas de bom uso nas situações
interacionais do mundo digital; com um capítulo dedicado a métodos de atingir o
sucesso no Twitter sem muito esforço. Esse não é o objetivo deste estudo e como
não existe o registro de algo semelhante, tanto Berg como os demais internautas
vão experimentando possibilidades composicionais hipertextualizadas, imitando o
outro.
Após a entrevista, adotei o cunho colaborativo de pesquisador etnográfico
e me sentei ao seu lado. Sugeri que abríssemos o perfil do site no Twitter para
juntos fazermos uma leitura coletiva de sua escritura no aplicativo. A primeira
coisa que percebi foi a falta de regularidade das atualizações, que ele justificou
transferindo a responsabilidade para o estagiário. Minha experiência dizia que
negligenciar os intervalos das atualizações é um ponto negativo para as
pretensões de sucesso e credibilidade frente à opinião pública em rede. No que
diz respeito à escrituração, percebi também nas postagens antigas, que o
enunciado que ele constrói para o site estava sendo transcrito literalmente no
aplicativo, destoando das formas semio enunciativas de usuários mais regulares.
Como escriturar no ambiente virtual da mídia cotidiana (no Twitter, por
exemplo), asseguram os especialistas, equivale a constituir conhecimento
coletivamente, fiz para ele uma leitura de algumas formas linguísticas que
compõem o suporte. Mostrei os aspectos relacionados à nova estética gráfica da
77
textualidade eletrônica 58 (CHARTIER, 2003) presente no mundo virtual que
assinala a vocação dialógica do aplicativo, através de signos de características
responsivas (no Twitter encontramos o curtir (likes), redirecionar (ou retweetar),
marcar, espaços para fazer comentários, etc, etc); comentei sobre os signos
nômades59 (LÉVY, 2011, p. 37) e sobre os entendimentos relativos a hashtag 60 e
a arroba 61 que se inscrevem no interior da massa textual. Elementos que
enriquecem o mundo de significados na escrituração na internet.
Ainda me referindo a Lévy (2011), expliquei que na ciber cultura são os
signos ideológicos que alimentam as correspondências on line, em função do
momento, dos leitores e dos lugares virtuais. Fiz ainda comentários sobre a
dinâmica da leitura em tela, ressaltando que ela faz sumir a massa material do
texto impresso, para dar lugar a uma série de sinais informáticos.
A linguagem da ciber cultura citada por Lévy (2000), a escrita de
textualidade eletrônica (CHARTIER, 2002), demonstrando vocação do cronotopo
(BAKHTIN, 2003), apaga o espaço inaugurando o tempo como o lugar mediato na
conveniência dos interesses imediatos. Na dimensão dialógica do ambiente
virtual, nos efeitos do diálogo social em rede, o tempo garante ao sujeito existir na
complexidade do espaço onde decorre a relação homem/máquina/linguagem
(LÉVY 2000). Em rede, o diálogo social existe na linguagem, a partir dos sentidos
que o constitui. Uma existência que se materializa no interior e no exterior da
massa semiótica enunciativa, que as leituras coletivas feitas a distância
potencializam e cujo valor ideológico62 e, pela alteridade, se revela no discurso.
58
Relembrando que para Chartier (2003), a escrituração de textualidade eletrônica, é uma língua que age
numa permanente busca, de maneira incondicional, por um idioma universal. Isto é, prevê um mundo sem
fronteiras e ignora a diversidade de lugares, coisas, indivíduos e línguas ainda presentes no mundo real.
59
Nos estudos de Lévy (2011), os signos nômades povoam o texto eletrônico virtual, criando, recriando e
reatualizando o mundo de significações que somos. Servem de vetor, de suporte ou pretexto à atualização de
nosso próprio espaço mental (p. 37).
60
É um símbolo que na escrituração virtual é uma ferramenta de busca dentro da internet (N.A.).
61
É um sinal gráfico de subordinação de lugar (N.A.).
62
Trato a ideologia aqui nos termos de Bakhtin (2001), como a expressão da luta de classes. Segundo seus
relatos, no contexto exterior, a ideologia exprime os momentos mais estáveis e dominantes da consciência de
classe, nas proximidades da ideologia constituída e enformada dessa classe, das suas verdades, sua moral e
visão de mundo. Segundo o autor, ela encontra morada nas camadas da ideologia do cotidiano, assim o
discurso interior se regulariza com facilidade e se converte livremente em discurso exterior, em todo caso não
teme vir a ser discurso exterior (ibidem 2001, p. 89).
78
Quando Berg agia como sujeito discursivo, dialogando por meio de
composição discursiva dialógica interativa, sua linguagem virtual trazia as marcas
de uma profunda transformação na forma do enunciado, marcando um tipo de
deslocamento linguístico na confluência entre o formal e as relações sociais
elementares. A partir desse entendimento, observei que a escrituração de Berg
carrega a forma linguística que é também marcada por uma intensa circulação de
signos ideológicos e que também abriga as transformações da língua em rede.
Para encerrar as atividades desse dia, apliquei a segunda entrevista com
perguntas complementares – um instrumento de pesquisa, planejado para a
dinâmica dos momentos colaborativos, contendo quatro perguntas curtas e
objetivas (ver anexo nº 2). Em suas respostas, Berg relatou que tudo o que
aconteceu nesse primeiro momento vivencial se revestiu de novidades. Pelo
entusiasmo que demonstrou, entendi que ele havia adquirido relativa confiança
para lidar com o aplicativo daquele momento em diante. O problema, reclamou,
era que ele acumulava muitas funções no site que lhe roubavam o tempo
disponível para está on line.
Nesse início de convivência, foi intensa a sensação de que a falta de
tempo, o acúmulo de funções e a necessidade de atrair investidores financeiros
para o site são indícios da comunicação de transmissão de interesse prático
(BAKHTIN, 1998), que faz de Berg um sujeito escritor de enunciados informativos,
cujos temas sociais, estabelecidos com certa antecedência, atendem as coerções
e ajustamentos dos interesses da hegemonia econômica.
Nas abordagens sobre os estudos de Barros Filho (2003), a pressão da
ideologia socioeconômica das classes dominantes, que ele considera fato
correlato aos conflitos de classe, há o jogo da medição de forças e a agenda
setting63 (BARROS FILHO, 2003) funciona como uma fonte geral de temas,
responsável por direcionar o potencial valorativo do discurso na rotina da mídia
63
No principio descritivo de Barros Filho (2003), no jornalismo a agenda setting é uma hipótese do impor
sobre a fala. Na mídia cotidiana, nos relatos do autor, a agenda setting determina, pela seleção, disposição e
incidência os temas sobre os quais o publico falará ou discutirá. Trabalhando no critério do que aconteceu
prevalece sobre outros acontecimentos, a agenda setting segrega e especifica a opinião publica e fixa o que
vai ser discutido, como e por que. Há ainda o espiral do silêncio, outra hipótese construída pelo autor,
relacionada ao impor o que se fala, inspirando o medo do isolamento social do jornalista. Ambas as hipóteses
prescrevem os critérios de seleção dos temas socais os interesses da ideologia hegemônica quer ver
publicada.
79
cotidiana, através de temas que giram em torno dos interesses dessas classes
sociais. É uma situação que contribui para engessar a livre iniciativa do sujeito
autorizado, que se expressa através do discurso, fazendo das especificidades
enunciativas da mídia cotidiana a reprodução das ideologias da classe dominante.
Trazendo para o contexto dialógico, percebo que, neste momento
discursivo contemporâneo, quando a agenda setting determina a maneira de
abordar o significado do tema, responde ainda pelas coerções normativas e
ideológicas. No chamado círculo Bakhtin/Volochinov (2004), isso sinaliza e
acumula também as tendências do pensamento dos setores poderosos
econômica e ideologicamente instáveis da sociedade que se manifestam na forma
da língua em conformidade com a materialidade histórica.
Nas minhas reflexões, percebi que a agenda setting, numa clara
demonstração de interrelação dinâmica social dos sujeitos na comunicação
ideológica, apaga no sentido do interior do enunciado as tensões das lutas de
classes socioeconômicas e os antagonismos ideológicos. O jornalismo cotidiano
apaga no sujeito do discurso as questões emergentes da realidade da vida e, pela
linguagem, explica Barros Filho, a massa semio expressiva delimita com precisão
os lugares concorrenciais (da empresa, do trabalhador, do governo e do leitor
cheio de efeitos), reinventando e ressignificando, pelo discurso, os temas e as
relações sociocomunicacionais de hoje (BARROS FILHO, 2003).
Saí desse encontro pleno de sentimentos e reflexões. Refletindo sobre
essa experiência de pesquisa etnográfica interpretativista, me dei conta da
importância de registrar as situações reais de interação sociocomunicativa de
uma realidade histórico-material discursiva, onde a linguagem representa o modo
de vida em particular. Em casa, relendo as anotações de campo, cheguei a
seguinte conclusão: não havia necessidade de voltar a aplicar a entrevista nº 2
com perguntas complementares. Na emergência de um caráter espontâneo,
perguntas fechadas deste instrumento podem vir a ser um risco para o livre
arbítrio do sujeito de se expressar. Não se recomenda arriscar em direções que
venham prejudicar a naturalidade de construção coletiva de conhecimentos
durante o período investigativo.
80
Segundo encontro
A segunda reunião aconteceu no dia 15 de março de 2016. Houve um
grande hiato para acontecer o segundo momento vivencial devido a ajustes de
agendas. Eu, por um lado, pressionado pela minha agenda acadêmica e Berg
com a sua sempre lotada de acontecimentos a cobrir e toda a sobrecarga da
rotina de trabalho diário dele. Numa postura etnográfica colaborativa, sentado ao
seu lado e de frente para a máquina de leitura conectada, acessamos outra vez o
perfil do site no Twitter. A intenção era recuperar as primeiras impressões sobre a
estrutura composicional desse suporte discursivo virtual. Mas, pela datação das
últimas postagens no Twitter, o projeto/meta de conquistar sucesso no aplicativo
estava parado. Desculpou-se, alegando mais uma vez a falta de tempo.
Começamos esse segundo encontro comigo relembrando os espaços
destinados no aplicativo para estimular o diálogo social (os símbolos para curtir,
ou retweetar etc.). Berg pediu para trabalhar com a hashtag. Vi, aí, numa
perspectiva colaborativa, a oportunidade de fazer uma oficina com ele.
Selecionamos e lemos alguns de seus enunciados no site e ensaiamos algumas
composições de hashtag. Grosso modo, a hashtag é uma experiência
composicional, que se encaixa na nova estética gráfica de escrita múltipla
hipertextualizada e que foi criada a partir da modalidade própria do suporte.
Descreve-se um conjunto linguístico formado por um símbolo (#) mais uma
palavra ou uma frase de ordem que sintetiza, na objetividade do contexto exterior,
a valorização do momento imediato do discurso.
Na condição de elementos linguísticos da
textualidade eletrônica
(CHARTIER, 2002), ajustei a hashtag à categoria de signo nômade (LEVY, 2011),
lhe dando o cunho de elemento simbólico hipertextualizado com função de
ampliar, pela técnica, o sentido no interior do enunciado. Parâmetros que me
fizeram perceber que a sua presença num enunciado de textualidade eletrônica é
uma marca objetiva das transformações do enunciado virtual, porque representa
no interior do enunciado o movimento das forças centrífugas 64 (BAKHTIN, 1998)
nos encaminhamentos de construção de sentidos.
64
Segundo Bakhtin (1998), as forças de movimento da língua representam a expressão teórica dos
processos históricos de unificação e de centralização, de desunião e descentralização linguística. Atuam no
81
Nos aspectos relacionados ao estudo, a hashtag representa nova forma de
expressão semio-discursiva multissemiótica. Chartier (2002) menciona o signo
hipertextualizado, e classifica-o de elemento linguístico que se valoriza no diálogo
social eletrônico por ser volátil e flexível. Portanto, para o diálogo na hashtag se
iniciar, basta uma “percepção imediata” e ela já se “associa a um tipo de objeto,
uma classe de texto e usos particulares” (ibidem 2002, p. 109).
Chamou ainda a atenção o fato de que a hashtag, inscrita na categoria de
signo nômade, quando impulsiona a força centrífuga (BAKHTIN, 2003, 1998) no
enunciado, confere a composição enunciativa e ao sujeito do discurso uma
autoria única e singular. Potencializando as forças descentralizadoras e de
desunião da massa semiótica, diz os estudos de Zozzoli (2016), permite que o
enunciado concreto e real favoreça a uma infinidade de outros enunciados, outros
entornos, ou outros sentidos, quando se articula entre suportes.
Faço um resgate de Bakhtin (1998), para entender que nessa experiência
discursiva de plurilinguismo dialogizado cada enunciado concreto do sujeito do
discurso constitui também um ponto de aplicação das forças centrípetas. Isto quer
dizer que também a centralização e unificação da língua se cruzam na
enunciação,
na
materialidade
discursiva
individualizada,
englobando
e
centralizando o pensamento verbal-ideológico.
Vibram da hashtag as forças de estratificação e de contradição, atuando
como forças elementares na dinâmica da vida da língua no diálogo social, que o
plurilingüismo vivo materializa pelo estilo da enunciação. As indicações externas,
as correlações de seus elementos próprios com aqueles do contexto de outrem,
que Berg leva adiante, toda vez que constrói escrituração jornalística. A hashtag é
uma língua social, ideologicamente saturada, que concebe o mundo em todas as
esferas da vida ideológica, porque dela decorre a relação indissolúvel com os
processos de centralização sócio político cultural.
No grifo de Bakhtin, isso só ocorre à medida que a língua está viva e
desenvolvendo-se, porque “ao lado da centralização verbo-ideológica e da união
caminham ininterruptos os processos de descentralização e desunificação”.
meio do plurilinguismo, naquilo que é essencial em línguas socioideológicas: a estratificação sociogrupais.
Englobando e centralizando o pensamento verbal-ideológico, que decorrem da relação indissolúvel com os
processos de centralização sócio-política e cultural (ibidem p. 81).
82
(BAKHTIN, 1998, p. 82). É o que se pretende mostrar agora no exemplo da figura
1. Um enunciado recortado da situação discursiva da pesquisa; nele, Berg usou
hashtag, demonstrando a força de descentralização, desunificação, na ação das
forças centrífugas de uma língua única.
Figura 1. Modelo de enunciado no Twitter.
Fonte: página no Twitter do site AlagoasBoreal.com.
A expressão semio enunciativa da massa semiótica apresentada, já
ajustada ao Twitter, relata o lançamento de um drinque etílico como novidade no
cardápio de uma empresa do setor de bares e restaurante, aqui em Alagoas. A
hashtag “#BebaComModeração” completa o todo do enunciado e imprime nova
camada de sentido ao processo de construção de sentidos. Na totalidade de
composição da forma do enunciado, expressa contradição; para isso, recorre a
um slogan de uma peça publicitária governamental, de uma campanha educativa
que alerta sobre os riscos de acidentes no trânsito e sobre as punições judiciais
para o infrator que dirigir veículo automotor embriagado.
Analisando a discursividade dada, na dimensão do não linguístico, se
utilizando do discurso direto, o tema no enunciado indica consumo e
entretenimento, no desejo da vida social interativa contemporânea. Essa imagem
é quebrada quando rompe a percepção imediata, acrescentando à situação de
83
prazer inicial pela sensação de insegurança e medo. A hashtag, pelo antagonismo
de sentidos no interior do enunciado, desestabilizou o conteúdo do tema,
desunindo o discurso e descentralizando as ideologias verbais (BAKHTIN, 1998).
A estratificação do tema e a contradição no interior do discurso aparecem,
nesse exemplo, como forças elementares na dinâmica da vida da língua no
diálogo social que Berg levou adiante. Enunciado e discurso materializam o
plurilingüismo vivo do aspecto linguístico, na materialidade do estilo da
enunciação. Eles admitem “uma variedade de vozes sociais e de diferentes
ligações e correlações (sempre dialogizadas em maior ou menor grau)”
(BAKHTIN, 1998, p. 75).
No exemplo recortado, e partido da materialidade do diálogo social na
cibercultura, a indexação65 da hashtag é elemento essencial na construção e na
articulação de sentidos numa expressão da massa semiótica ideologicamente
saturada e midiatizada. Na dinâmica enunciativa de unificação e estratificação da
textualidade eletrônica, nesse exemplo, a hashtag foi protagonista do tempo como
o lugar em si mesmo, com sua própria consciência. Valendo-se de uma situação
de endereçamento e indicações do autor, a hashtag remete o leitor/seguidor à
distância para um “espaço de sentido não preexistente à leitura” (LEVY, 2011, p.
36). As interações no meio ambiente virtual ocorrem mesmo que os interlocutores
não
compartilhem
a
mesma
dimensão
de
espaço
e
tempo
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004 e ZOZZOLI 2015).
No caso de Berg, refletindo sobre os aspectos relacionados à pesquisa,
percebi que, quando ingressa nessa dimensão do diálogo social, as atividades
humanas e os costumes culturais consistem em dispositivos temáticos. Berg
virtualiza os relacionamentos, fazendo ligações e correlações a partir das relações
de forças ideológicas antagônicas, ou não; pelas pulsões, ou instintos, sob os
efeitos dos desejos imediatos.
A hashtag apresentada no exemplo 1 se revelou dinâmica na circulação de
sentidos, na articulação entre suportes e na sua totalidade de elemento
composicional. Na situação analítica discursiva, a situação do cotidiano exterior
cultivou o plurilingüismo dialogizado (BAKHTIN, 1998) na qual estão presentes os
65
Se clicar no botão da esquerda do mouse sobre a hashtag, o internauta é linkado a uma lista de temas que
tratam do mesmo assunto em tempos e lugares diferentes (N.A.).
84
costumes culturais de uma comunidade socialmente organizada, com uma língua
viva e desenvolvendo-se. Nos relatos deste autor, o sujeito do diálogo interage
com a máquina, opera e potencializa na linguagem a informação, dotando-a de
hipertextualidade, de forma hierarquizada por áreas de sentidos. Ligadas às
zonas de sentidos (LÉVY, 2011), a massa semiótica da hashtag que Berg
inscreve no enunciado estabelece a forma do hipertexto se beneficiando da
associação com a memória coletiva, sobre a qual a hashtag se destaca e remete.
Depois das experimentações com a hashtag, Berg decidiu mostrar como
ele constrói enunciados informativos para o seu site. A oportunidade que queria
de presenciar o ponto de fecundidade cultural, abstrata e independente da ação
do sujeito, que Levy (2011) descreve como o momento interativo entre o sujeito e
a máquina (re)produtora de enunciados virtuais. No grifo de Lévy (2011), toda vez
que escrituramos na máquina o sujeito pratica “uma tecnologia intelectual”, quase
sempre exterior, objetivando “uma função cognitiva, uma atividade mental” (LÉVY,
2011, p. 38) de interação.
Diante de uma ação singular de construção discursiva, verifico na
performance de Berg, primeiro ele fazer uma criteriosa seleção das mensagens
que chegaram por e-mail (o conteúdo enviado através de agenda setting),
seleciona aquelas que, seguindo os encaminhamentos de seu interesse
imediato66, passam pelo primeiro processo de transformação para o texto
jornalístico, quando recebem tratamento de enunciado informativo para o site.
Neste momento, relembrando Barros Filho (2003), sem dúvida, as regras
mercadológicas e ideológicas em conformidade com a linha editorial do site são
que orientam a escolha dos temas.
Uma releitura na massa de texto escolhida ajusta e reduz ainda mais
seleção. Agora, pesam na decisão a relevância do acontecimento e da
personagem, o tempo e o espaço, os interesses da ideologia, sob a pressão da
economia hegemônica. Por fim, naquilo que lhe garante relativa autonomia de
sujeito enunciador, Berg complementa a informação imprimindo certos destinos
históricos, englobando e centralizando o pensamento verbal-ideológico do
discurso.
66
O site adota uma linha editorial voltada aos temas em torno de acontecimentos ligados a comportamento,
diversão, eventos culturais, a cultura em geral.
85
Entendi que, ele segue esse passo a passo com a intenção de criar
confiabilidade e respeitabilidade perante seus leitores/seguidores à distância e, ao
mesmo tempo, junto aos seus parceiros comerciais, assume o papel autoral de
sujeito do discurso. No geral, é a maneira de mostrar resistência em relação às
coerções econômicas e ajustamentos ideológicos. Berg faz a crítica às práticas
enunciativas que alguns profissionais da mídia cotidiana assumiram. Segundo
explicou, optam por copiar e colar a massa textual que chega à redação, sem
fazer a devida checagem e os acréscimos. Esse comportamento é estimulado
pela ideia da incansável e permanente necessidade de atualização que
velocidade da informação costuma provocar na internet.
Na performance de Berg encontro Bakhtin (2001), quando se refere ao
âmbito das relações verbalizadas. É um produto da linguagem do homem, diz o
autor russo, em todos os momentos essenciais da sua vida, determinado pela
situação social da enunciação. Berg expressa “todo o verbal no comportamento
do homem (assim como os discursos exterior e interior)”. Isto é, o “produto da
interação entre falantes e, em termos mais amplos, produto de toda uma situação
social em que ela surgiu” (ibidem 2001, p. 80 - 86).
Chartier (2002) faz um alerta sobre essa prática na textualidade eletrônica.
Segundo o consta em seus trabalhos, a prática de colar e copiar decreta a morte
do autor e consagra ao leitor o sentido imediato no interior do enunciado. A
comunicação eletrônica, livre e espontânea, explica Chartier (2002), autoriza
qualquer pessoa a por em circulação suas próprias reflexões ou criações,
vendendo uma falsa autoridade discursiva. Na ordem das propriedades do texto
eletrônico Chartier (2002) critica a quebra da formalidade jurídica (aqui o autor se
refere à quebra do copyright) que, hoje, faz o sujeito apropriar-se indevidamente
da palavra de outrem, pela cópia não autorizada.
As checagens de informação que Berg faz quer dar o tom de autoria na
massa semiótica, aquilo que o chamado círculo Bakhtin/Volochinov (2004)
estabelece por unidade e singularidade irredutível ao autor de um texto acabado.
No caso pesquisado, o sentido no interior do discurso só se concretiza porque
está em relação com outras línguas sociais, reunidas no interior de um único
hipertexto.
86
São
o
que
Chartier
(2002)
classifica
de
elementos
informantes
complementares, conteúdos hipertextuais que permitem ao leitor validar a leitura
– para isso, acrescenta imagens (fixas ou em movimento), links ou o áudio, etc.
Na dialética do possível, o sujeito do discurso está sempre investindo em novas
maneiras de construir o discurso, adaptando-se, agora, a encaminhamentos de
escrita coletiva, múltipla e polifônica (ibidem 2002, p. 25). Na ordem dos
acontecimentos, segundo o autor, quando intervém no conteúdo pelo recorte, ou
pelo deslocamento, ele procura estender ou recompor as unidades linguísticas.
Berg redige o texto final digitalizado no redator Word da Microsoft. Edita a
massa de texto, isto é, escolhe imagens, escreve títulos/manchetes, reforços,
legendas e organizar graficamente todas as informações complementares, dando
ao sentido no interior do enunciado novas maneiras de construir o discurso. Aqui,
a operacionalidade da máquina implica o processo que Berg executa
mecanicamente, atendendo uma ordem de códigos informáticos digitais,
determinada pela nova modalidade gráfica. Só após esse processo, o enunciado
é enviado para o site.
A matriz de textos rolando numa tela digital se realizar no processamento
da máquina, só depois, na interação com o leitor. Berg, o sujeito do discurso,
executa um comando na máquina para a realização parcial do enunciado; o todo
do enunciado precisa corresponder a um conjunto de programas de organização
e exibição; os programas se dividem em duas etapas que se complementam:
uma, é a etapa da escrituração semiobjetivada ligada à memória do enunciado,
essa escrituração é dessincronizada e deslocada; a outra, refere-se à prática de
leituras à distância, separadas no tempo e no espaço de sua fonte de
transmissão. Lévy (2011) dá ao primeiro plano o tratamento de “par potencialreal”, associando esse plano a outras maneiras de escrever; o segundo plano ele
chama de “par potencial-atual” que está ligado a outras maneiras de ler (LÉVY,
2011, p. 40). Os dois planos juntos conferem ao texto digitalizado novas formas
de apresentação e de fios de sentidos.
A escrita de Berg na máquina de leitura é uma situação de
endereçamentos e indicações dos componentes do hardware, o processo de
automação da escritura – os enunciados são unidades de processamentos, de
transmissão, de memória e de interfaces de entrada e saída do enunciado no
87
ciberespaço (LÉVY, 2000). Num trabalho mais recente deste autor, ele argumenta
que, os micromódolos cognitivos automáticos da máquina se juntam aos dos
humanos, numa simbiose que ajudou a transformar ou aumentar suas
capacidades de aprendizagem, de navegação e de comunicação.
Na interatividade do ciber espaço, Lévy (2011) explica que o enunciado
existe o como meio das ocorrências interacionais virtuais, se beneficiando da
conexão e do processamento de dados. A alteridade no ambiente virtual significa
coordenações e sinergias entre as inteligências individuais e em grupos.
Na práxis de Berg, ele se conecta na internet, e comanda o endereço do
provedor, a empresa de tecnologia da informação que abriga seu site. Faz o login,
digitando um apelido e envia junto com uma senha de acesso. Aparece uma
janela com um formulário dividido por zonas de informação, previamente
distribuídas em espaços já determinados. Ali, ele sobrepõe títulos, reforços,
legendas, imagens, gráficos, se tiver, e a massa textual, entre outros dados.
Registros estando salvos, aparece uma nova janela. Nesta, materializa-se a
realização parcial do enunciado (o par potencial-real). Hora de Berg fazer leituras,
correções ortográficas e gráficas que a nova modalidade gráfica sugere; e de
conteúdos – que envolvem também os ajustes e coerções, sob o efeito da
pressão
da
ideologia
e
da
economia
hegemônicas.
Agora,
a
massa
multissemiótica pertence ao plano do par potencial-atual; à mercê das leituras
coletivas à distância. Feito o registro da primeira transformação, o primeiro
processo de hipertextualização do enunciado.
Permanecendo na dimensão dialógica interativa no ambiente virtual, Berg
separa algumas das atualizações feitas no site, para receberem novo processo de
transformação; um ajustamento estrutural, desta vez, adequando-se as
espacialidades das redes sociais (aqui, no Twitter). Nessa hora, o critério de
seleção considerada é, sobretudo, o potencial de sentidos do enunciado de
ampliar os entornos, o potencial do coletivo do tema, e a identificação cruzada do
leitor e do autor no discurso.
Apesar das similaridades dos softwares e de se encontrarem no mesmo
ambiente de códigos informáticos, a operacionalidade nesse segundo processo é
ágil e menos complexa. Ao contrário do processo atualização do site, nas redes
88
sociais o componente processual é universal e autocalculante; isto é, distribuem o
enunciado no técnolugar67, sem a dispensa de um grande número de operações.
Dias depois, procurei minha orientadora de pesquisa e expus tudo que
havia passado nos dois encontros; dispensando detalhes, enfatizei minhas
impressões sobre as duas experiências. Ela me recomendou duas orientações
fundamentais nessa investigação: a primeira, reduzir o hiato temporal entre os
encontros investigativos, e com isso garantir certa regularidade; e, a segunda, dar
mais atenção à composição semântico-objetal do enunciado que Berg constrói.
Seriam, portanto, essas composições limitadas e precisas os pontos sensíveis da
massa textual que terei que analisar na perspectiva dos princípios fundamentais
do dialogismo, que darei uma análise que parte do linguístico ao não linguístico.
Terceiro momento vivencial
Este encontro aconteceu no dia 8 de abril 2016. Como das vezes
anteriores, agendar um horário com Berg não foi tarefa fácil, mas consegui reduzir
em menos de um mês o espaço entre os dois encontros. Sem uma agenda
preestabelecida, fui até sua casa. Encontrei um Berg pouco entusiasmado,
deprimido, num cenário desolador. Há dias estava sem conexão. Há dois meses,
os retornos com publicidade não eram suficientes para pagar o plano que ele
contratou com a operadora de internet e foi cortado. Para manter o site atualizado
precariamente, estava trabalhando de maneira improvisada na casa de uma
parenta, dividindo o computador da casa com os outros moradores.
Coloquei-me em seu lugar e, só assim, entendi sua resistência para marcar
novo encontro. Berg pensava, e eu também, que sem acesso à rede mundial de
computadores, era praticamente impossível trabalhar a temática social da
pesquisa. De minha parte, achava que os encontros só seriam interessantes se
todas às vezes eu pudesse ver o processo único e singular de sua escrituração e
reescrituração de enunciados jornalísticos, tomado pela ideia de analisar os
processos de transformação que o enunciado sofre para manter o sentido do
67
Esse neologismo teve o sentido desenvolvido durante as formulações teóricas desta pesquisa (N.A.).
89
enunciado no momento que se articula entre suportes. Mas, havia – e isso era de
fato o que interessava – o lado humano do processo, isto é, a visão etnográfica de
um sujeito e suas práticas discursivas em ambientes conectados.
Ali, tinha um Berg desconectado, pelo avesso, afastado de suas práticas de
produtor de discurso, de enunciador autorizado, na contramão da razão de existir
do sujeito dialogal contemporâneo. Abatido moral e psicologicamente, Berg se
sentia fora do circuito. Vivia de fato uma crise histórica-pessoal de ordem
econômica que afetou diretamente seu bolso e sua atividade de profissional da
informação do jornalismo cotidiano.
O Berg projetado inicialmente na categoria de sujeito líquido (BAUMAN,
2004), enunciador de discursos líquidos, era agora a representação do sujeito
mudo no epicentro da crise de paradigmas contemporâneos, impedido de
experienciar a conexão e o desejo de consumir e de ser consumido,
comunicando-se a distância. Berg sintomatizava os efeitos colaterais de
abstenção virtual, que acomete o sujeito impedido de práticas discursivas em
rede.
Tinha diante de mim a oportunidade de experienciar pela alteridade a
realidade social material e histórica de Berg e de poder na situação apresentada,
exercitar a prática de crítica social. Sob o guarda-chuva da L.A. contemporânea,
via a oportunidade de construir o conhecimento também da experiência da vida
do outro, dentro de uma situação inesperada. Parti de Bakhtin (2001), do ponto
em que ele afirma que, na dialética da história em proporções sociológicas
amplas e concretas, sujeito e historia se cruzam.
Aquela realidade histórica-pessoal de Berg era a realidade de outros tantos
empreendedores da mídia cotidiana; uma realidade desfavorecida pela pressão
da ideologia constituída pelas condições de produção econômica dominante. No
exemplo de Berg, registra-se a existência sacrificada de uma pequena empresa
de mídia independente. As torneiras das verbas publicitárias se fecharam e, no
caso de Berg, as da prefeitura e do governo estadual. Os dois institutos públicos,
justificando uma histórica crise financeira, pararam com os investimentos em
publicidade para os pequenos veículos de comunicação.
90
Berg reclamou da burocracia de uma política rígida de controle das contas
públicas, que exigia dos pequenos empreendedores pagamentos antecipados dos
impostos sobre serviços e taxas, certidões negativas, etc. Só assim, garantiria a
quitação dos restos a pagar. Sem apresentar as obrigações de contribuinte, Berg
não recebia os pagamentos atrasados. Sem dinheiro, não conseguiria efetuar
suas contas pessoais. Ou seja, se encontrava numa espiral que parecia não ter
fim.
Já não contava mais com a ajuda do estagiário de mídia. Teve que
dispensá-lo. Todas as atividades do site estavam em suas mãos. Para manter o
mínimo de sobrevivência, Berg vinha cobrindo férias de colegas que trabalhavam
para as grandes empresas de mídia locais. Esse contexto no espaço da mídia
cotidiana sugere a clara e intensa atividade de luta de classes sociais, que é
descrito por Barros Filho (2003) como um espaço concorrencial onde as
condições de produção econômica determinam as posições entre dominados e
dominadores. Aqui, a palavra de outrem vai além de ajuste e coerções de
sentidos para um auditório social dado; torna-se uma estratégia de sobrevivência,
na contextualização da ideologia sócio-política dominante, que determina quem
diz o quê para quem e em quais circunstâncias deve ser dito.
Sobre as reflexões de Barros Filho (2003), quando se refere a respeito da
ética na comunicação social, o autor afirma que são crises financeiras similares
da de Berg que respondem pelo silêncio do potencial discursivo destes pequenos
empreendedores da mídia cotidiana; sujeitos que enveredem nessa atividade de
comunicação vocacionado pelo ideal de liberdade de expressão. Nessas
ocasiões, a hegemonia econômica tem a oportunidade de fazer seus ajustes
ideológicos. A falta de recursos engessa de vez aquilo que ainda pode restar de
uma relativa autonomia de sujeito do discurso. Por essas vias, a hegemonia
econômica da sociedade contemporânea vai imobilizando e fragilizando ainda
mais o direito constitucional da livre expressão.
Nessas horas, nos momentos de crise econômica, de intensos conflitos
ideológicos e apagamentos da consciência de classe, a agenda setting (BARROS
FILHO, 2003) é o que alimenta o conteúdo do enunciado escamoteado na falsa
identidade singular do autor. Nessas situações, o significado do tema abordado
está corrompido pelas referências e as coerções das tendências sociais em jogo
91
(BAKHTIN, 1998). Nada do que é dito e lido nos meios de comunicação em
massa está isento.
Saí desse encontro desesperançoso e preocupado. Pensava em como
reanimar Berg a prosseguir com a investigação. Quanto tempo duraria ainda essa
crise? Preocupava-me não saber em que medidas a situação em que Berg se
encontrava (desconectado e com a autoestima baixa) iria interferir no desenrolar
do tema social da pesquisa. Precisava de uma estratégia metodológica que
pudesse prosseguir com a pesquisa, ajustada às condições de produção que
encontrei naquele dia, naquela redação.
Pensei na oficina que fiz com a hashtag. Havia notado que esse tema lhe
interessava. Até as coisas voltarem às condições de produção anteriores, a
hashtag seria o fio discursivo que nos manteria filiados ao contexto da pesquisa.
Tinha observado que para se chegar à forma composicional da hashtag Berg,
necessariamente, tem que executar todo um processo de escrituração do
jornalismo isto é, ajustar o enunciado a estrutura semio enunciativa em rede. A
hashtag entra em cena, ao final, acrescentada como elemento de resistência das
forças da língua. Duas semanas depois, mais aliviado, Berg avisou que já tinha
restabelecido a conectividade. E após um longo processo de novas negociações
via rede social, um almoço e um lanche da tarde, marcamos o próximo encontro.
Quarto encontro
Cheguei para esse encontro investigativo, que aconteceu no dia 6 de junho
de 2016, com uma peça publicitária que o Twitter me enviou por e-mail. Agir
assim faz parte da dinâmica dialógica dos operadores dos aplicativos. Em geral,
estão sempre alimentando uma espécie de interação com os usuários, por meio
de mensagens via e-mail, através de peças publicitárias. Nesta peça havia
instruções que ensinava o internauta a dinamizar a interatividade na rede.
Nessa peça trazida, havia um texto curto que em poucas palavras
lembrava ao internauta para usar sempre hashtag. Não era um conjunto de regras
para o uso de; nem um “modo de fazer”, mas um texto de conteúdo
argumentativo-explicativo, que estimulava o usuário a sempre usar a hashtag nos
processos de interação no Twitter. Era a prática diária, que dotaria os internautas
da capacidade de usar a hashtag como melhor lhes conviesse.
92
Enquanto Berg exercitava composição de hashtag, aproveitei para
observar o percurso das alterações que o enunciado se submete, nas mãos dele,
no momento que é articulado entre vetores; quando ele os valoriza no momento
que se materializa na memória interdiscursiva midiática (MOIRAND, 2006 apud
ZOZZOLI, 2013). Aproveitei e fiz questionamentos que não atendem as questões
norteadoras
da
pesquisa,
mas
que
serviram apenas
para
balizar
as
compreensões que nós retiraremos desta oficina.
Figura 2 – modelo de enunciado no Twitter
Fonte: pagina no Twitter do site Alagoas Boreal.com
No exemplo 2, no contexto da textualidade eletrônica, a hashtag é um
conjunto multissemiótico com a intenção de garantir sentidos, nos domínios da
força centrípeta e na transtextualidade das forças centrífugas (BAKHTIN, 1998)
do enunciado. No exemplo 2, a falta de um adjunto adnominal de lugar que
sinaliza o espaço geográfico do artesanato, é compensada na hashtag que
assume a função de indexar o lugar da situação material dada atuando como
forças centrípetas; enquanto a força centrífuga amplifica e multiplica as fronteiras
do sentido do conteúdo.
93
A hashtag #ArtesanatoAlagoano, no domínio da memória interdiscursiva
midiática da escrituração no jornalismo cotidiano, localiza o espaço no interior da
memória especifica da mesma família de acontecimentos (MOIRAND, 2006 apud
ZOZZOLI, 2013). Nas condições de construção da escrituração do jornalismo
cotidiano, é o discurso direto que valoriza o potencial discursivo dialógico. O signo
nômade #ArtesanatoAlagoano é ideológico e aparece marcado pela polissemia no
interior da expressão semio-enunciativa única e singular, na significação que o
sujeito organizou para dizer algo sobre alguma coisa. Inserida num contexto
dialógico discursivo, a transtextualidade na hashtag destacada valoriza o
artesanato local e, através das forças de união e centralização, de desunião e
descentralização, identifica os apelos ideológicos, nos relatos suturados de vozes
sociais.
O sentido do discurso no interior da hashtag #ArtesanatoAlagoano marca
comprometimentos
com uma
dupla
dimensão
de
análise
discursiva
e
forma/composicional, que se encontram nos estudos sobre o enunciado. No grifo
de Bakhtin (1998), para se chegar à compreensão dessa dupla dimensão há um
percurso semiótico discursivo a disposição, cujos livres critérios analíticos ficam a
cargo do sujeito autorizado a discursar. Diz Bakhtin:
“Em todos os seus caminhos até o objeto, em todas as
direções, o discurso se encontra com o discurso de outrem e não
pode deixar de participar, com ele, de uma interação viva e tensa”
(BAKHTIN, 1998, p. 88).
Na interatividade das redes sociais, no livre trânsito discursivo, é grande a
circulação de uma variedade de produções discursivas dessa ordem nas mais
variadas composições semio-objetais #Sozinhos, #SíndromeDeDown, #G1,
#ForaTemer, #FicaDilma, #FicaADica etc,). Na força do discurso ideológico, a
linguagem da forma expressiva da hashtag é marca de reivindicação e de
instauração de direitos, que se materializam nos dizeres sobre acontecimentos e
nos vínculos que estabelece com outros gêneros, sobretudo, quando articula
entre os suportes.
Voltando a realidade do momento discursivo daquele encontro, perguntei
se Berg poderia definir o que é para ele um texto jornalístico. Sua resposta foi em
tom de reclamação. Reclamou da forma de escrever de alguns profissionais, hoje,
94
que, pressionados pela velocidade da atualização do ambiente virtual, fazem
circular grande volume de informações imprecisas e incompletas. Voltou a falar
mal da prática de copiar e colar o release sem a devida checagem. Aqui entendi
que sua preocupação não se tratava dos riscos da cópia, do plágio, da presença
da palavra de outrem. O que estava em jogo, sob sua ótica, era o desvio que
punha em risco os princípios de credibilidade e respeitabilidade da mídia.
Berg disse que os estagiários que passaram pela redação do site, que
representam a nova geração em formação de sujeitos enunciadores do
jornalismo, preferem usar o Instagram para as práticas enunciativas. Do ponto de
vista da crítica social isto quer dizer que essa geração de novos informadores
está perdendo o interesse pelo texto, em proveito da imagem. Isto nos diz
também que toda uma geração está sendo preparada para discursar sem texto,
preparada para apagar a autoridade discursiva que o enunciado inteiro, concluso,
real e concreto confere ao discurso e que são essenciais para a vida e a
linguagem do sujeito o discurso – esse comportamento, consequentemente,
enfraquece a dinâmica dos movimentos de unificação e descentralização da
língua, para alimentar o desejo do consumo imediato. Berg percebeu que precisa
ele mesmo se ocupar das atualizações no aplicativo, para que o perfil tenha a
cara dele, do site dele.
Sobre o que ele define como texto jornalístico, Berg relatou que, para ele, é
um texto que respeita a forma composicional da linguagem do jornalismo,
atendendo algumas regras essenciais. Por exemplo, ter um lide68 no primeiro
parágrafo. As informações elencadas na forma de pirâmide invertida 69. Culpou as
escolas formadoras, que jogam, no mercado, profissionais despreparados para
distinguir diferenças entre o imediatismo de um texto informativo e a versatilidade
de um texto, por exemplo, sobre um comportamento social ou sobre uma
atividade artística.
Refletindo, junto com ele, relembrei que para além dos conflitos nos
desdobramentos das formas enunciativas e do conteúdo da mídia cotidiana,
agora, como a virtualização, os valores mudaram, porque também mudaram as
68
Segundo regras gerais da técnica de escrituração do modo informativo aprendido nas escolas formadoras,
o lide é primeiro parágrafo de uma notícia e deve responder a seis perguntas básicas da informação: o que,
quem e quando; como, onde e por quê.
69
Essa estrutura parte da ideia de relatar os fatos pela ordem decrescente de importância.
95
formas de ler e escrever, assim como mudou a maneira de constituir sentidos,
determinados pelas mudanças no comportamento de interação sociocomunicativo
na contemporaneidade.
Durante suas reflexões, disse que quando passou a trabalhar como os
meios digitais apenas transportou o conhecimento que tinha recebido do meio
impresso, sem ter vivido um momento de adaptação ao novo modo de escritura.
Só agora que estava se adaptando a essas práticas, estava ajustando sua
linguagem à situação da síntese do enunciado e das formas multissemióticas
como elemento dinâmico da interação social na velocidade de circulação da
informação na mídia digital. Um legado que a pesquisa está proporcionando.
O encontro seguinte
O encontro aconteceu no dia 15 de junho de 2016. Neste dia, encontrei
Berg envolvido com mais problemas técnicos. Desta vez, era a memória do PC
que havia queimado. Sentado à mesa da sala de jantar da casa, trabalhava com o
notebook. Quando cheguei, interrompi momentaneamente a seleção de músicas
que ele estava fazendo para o repertório de um show em homenagem a sua
trajetória musical. Paralelo à atividade de comunicação jornalística, Berg escrevia
poemas e os musicava no estilo rock/punk, e ainda era band líder de uma banda,
digamos, em formação; isto é; a banda era montada de acordo com a
disponibilidade dos músicos, todas as vezes que ele tem um show para fazer.
Além de cuidar do repertório do show, da iluminação, direção e figurino, cada
show implicava pra ele também a montagem da banda.
Pelo fato de segui-lo no Twitter, eu sabia que Berg ainda tinha dificuldades
para trabalhar com o aplicativo da maneira que ele desejava. Ele não atualizava o
perfil no Twitter desde o nosso terceiro encontro, já fazia um mês. Não sei dizer
se no futuro ele vai atingir o sucesso desejado. De minha parte, valeu ter
compartilhado conhecimentos, e conseguido juntar dados para serem analisados
sobre a singularidade de suas práticas e atitudes discursivas em rede.
Naquele dia, especificamente, suas prioridades eram outras. Estava focado
no show e concentrado numa nova meta para atrair mais parceiros publicitários
para o site. Nesse clima, ficamos ali conversando por mais um tempinho sobre as
coisas que constituem a vida. Desta vez, não acessamos a Internet, nem abrimos
96
o site, muito menos o perfil no Twitter. Apenas conversamos sobre diversas
coisas. Berg disse que tinha planos para fazer um up grade no site. A ideia era
criar interfaces entre o site tivesse com diversas redes sociais.
Aproveitando o momento de descontração em que Berg se encontrava,
lembrei a ele que na entrevista do terceiro encontro havia afirmado que,
geralmente, usava a chamada norma culta para escrever o enunciado jornalístico;
que na ocasião ele havia falado sobre lide e pirâmide invertida. Perguntei o que
ele acrescentaria além isso. Berg explicou que aprendeu essas regras durante a
formação em Jornalismo. Disse, por exemplo, que sempre vai incluir um verbo no
título/manchete, precedido por um substantivo que define e conceitua o tema
(acredito que ele se referia aos complementos nominais e verbais, constituintes
de uma frase ou oração, que a sintaxe explica). Ele considera serem esses
elementos sintáticos importantes para a construção de sentidos, para tornar o
texto do modo informativo cotidiano mais comunicativo.
Mas, na prática, nem Berg, nem ninguém trata a língua em conformidade
com as regras da norma culta; embora, ele defenda a normatização da língua,
essenciais para construir a compreensão no outro. Berg é usuário de uma
linguagem aproximando-se da modalidade oral, cujos discursos se realizam numa
língua que todos os seus interlocutores também utilizam, em toda materialidade
real de diálogo. Portanto, a língua é tratada de acordo com o interesse imediato
do discurso, lidando com ela de maneira que pareça mais natural e menos
coercitiva.
Uma estratégia de escritura contemporânea para parecer atual e dinâmica,
as escrituras jornalísticas adotam regras gerais e fazem constantes reformulações
da linguagem, atendendo aos objetivos, o modo e as construções discursivas do
sujeito. Nos relatos de Lages (2003), o autor afirma que, em condições tão
flexíveis de linguagem, e pressionado pelo curto tempo que tem para construir
enunciados, o sujeito tenta ajustar suas práticas enunciativas à dinâmica da
velocidade de produção e circulação da informação. Resgato o grifo de Lages que
assegura que, em jornalismo, a ênfase desloca-se para os conteúdos, para o que
é informado (LAGES, 2003, p. 35).
97
Ainda voltei duas ou três vezes àquela redação/casa para fazer visitas de
cordialidade. Nessas ocasiões, conversávamos sobre assuntos diversos.
Geralmente, ouvia suas críticas e reclamações e juntos simulávamos soluções
para as crises mais imediatas. Esses encontros fortaleceram nossas relações
sociais que andavam distanciadas pelas contingências histórico-materiais. Essa
experiência etnográfica colaborativa fez me sentir ainda mais responsável por
Berg e pelas condições de produção enunciativa das escriturações no jornalismo
cotidiano, as quais eu acrescento, a partir de agora, sentidos ideológicos aos
discursos na mídia e passo a vê-lo como espaço correcional de lutas de classes e
dos antagonismos ideológicos, pressionados pela hegemonia econômica.
3
Análises de enunciados nas postagens no Twitter
Tomamos, agora, o objeto do discurso e aplicamos uma análise da
composição do enunciado, dando tratamento de elemento de uso puramente
social (BAKHTIN, 2003). Pretende-se efetuar processos analíticos da existência
estética da singularidade discursiva de Berg, as aquisições e realizações
enunciativas
que
pela
linguagem
satisfizeram
sua
intenção
discursiva;
abrangendo a maneira com que Berg cuidou da linguagem e deu soluções para
usar socialmente a língua na condição de sujeito do discurso.
Vamos trabalhar com contextos onde são comuns processamentos
mecânicos de linguagens, interações com máquinas de leitura, inteligência
coletiva e memória artificial (tomando emprestadas as expressões de Lévy
(2011)). Supomos que, agindo no contexto discursivo, a intensão de Berg era
garantir ao enunciado eletrônico virtual de sua autoria certa regularidade dialógica
de sentidos, que ele considerou ter alcançado numa permanente ação de escritas
e reescritas de temas sociais, e que, depois, ele colocou para circular na internet.
As análises sobre os desdobramentos das transformações dessas
estruturas enunciativas que ocorrem no universo do enunciado articulado entre
suportes digitais partiram da compreensão da estética gráfica de Chartier (2002)
em uso no ambiente virtual, e procura fazer descrições sobre a composição do
enunciado virtual, que deem sentido à dialética resultada na inseparabilidade da
situação em que se materializa.
98
Quando comecei a acompanhar as postagens que Berg fazia no Twitter,
notei que ele colava e copiava o título da matéria publicada no site precariamente
hipertextualizado e o articulava no Twitter; isto é, o enunciado não tinha imagens,
nem links – as orientações e indicações de um hipertexto. No exemplo da figura 3,
procura-se evidenciar os diversos saturamentos de vozes alheias, e em que
precisas circunstâncias do enunciado elas apareciam nas postagens de Berg no
Twitter.
Figura 3 – modelo de enunciado no Twitter
Fonte: página no Twitter do site Alagoas Boreal
Figura 4 – modelo de enunciado no site Alagoas Boreal
Fonte: site Alagoas Boreal.com
99
No hardware, a estética gráfica é determinante para o tipo de gênero
aplicado no discurso; que, por sua vez, corresponde e se ajusta aos tipos de
suportes e os layouts das infográficas. E aos comprometimentos ideológicos,
também. No enunciado Prefeitura de Maragogi, a presença do outro é
camuflada, sem o auxilio do dito e nem de formas incertas da presença do outro
através da nominalização. Ao utilizar “A Prefeitura”, Berg não personaliza a ação
efetuada e dá a dimensão de caráter público e não do particular.
Quando inscreve Prefeitura de Maragogi inaugura creche em parceria
com a iniciativa privada, Berg põe em ação os princípios do objeto de interesse
prático (BAKHTIN, 1998, p. 141), usando as palavras para atrair parceiros
publicitários interessados em investir no seu empreendimento. Esse exemplo é o
registro de uma das ocasiões em que ele transmite a palavra de outrem com
todos os graus de variáveis, de precisão e imparcialidade aparente. Nessa
refração, as condições econômicas inserem novo elemento na realidade do
horizonte social, tornando a ênfase valorativa do conteúdo do signo ideológico
socialmente significativo e interessante.
No conjunto de objetos recortados durante as investigações, selecionei
também o exemplo a seguir.
Figura 5 – modelo de enunciado no site Alagoas Boreal
100
Figura 6 – modelo de enunciado no Twitter
Fonte: página do site Alagoas Boreal e página no Twitter do site Alagoas Boreal
Verifica-se nesse exemplo que o verbo foi o elemento que sinalizou a
transformação da forma semântico-objetal da manchete postada no site quando
articulada para o enunciado postado no Twitter. O verbo acrescentou a forma da
enunciação que representa a ação do acontecimento da peça em cartaz
promovendo uma diferença semântico-discursiva. Quando Berg acrescentou “lida”
no enunciado, pressupõe uma atitude ativa do pai em termos de ação concreta
em relação ao filho, enquanto que ao empregar o substantivo “surpresa”, não
existe ação concreta inserida.
Numa segunda avaliação, percebe-se, nesse exemplo, que Berg procurou
uma maneira de interagir menos impactante com seus leitores/seguidores,
fazendo uma distinção da forma contextual no enunciado escrito para um site,
cuja linha editorial trata de cultura e entretenimento. Mas, quanto articulou
enunciado para o Twitter e substituiu o substantivo por um verbo na oração, quis
promover um impacto na leitura. Nessa segunda forma semântico-objetal do
enunciado de Berg está presente uma estratégia de intenção discursiva para
atrair internautas para visitar no site.
101
No plano da composição e do contexto de sentido no interior do discurso,
Berg faz uso de palavras, para marcar a presença da palavra do outro (BAKHTIN,
1998) no fragmento do verbo. No enunciado para o site, a ação é um substantivo
abstrato, a surpresa do pai com o acontecimento inesperado de ter um filho
portador de uma doença congênita; para o Twitter, recusando a postura
conformista desse pai o verbo dá ênfase ao enunciado, instruindo para o fato
inesperado.
Berg recorre à forma de um gênero retirado de um repertório dado, que
costuma apagar a presença do outro, porém marca esse lugar recorrendo ao
auxílio do “dito”, num contínuo frasal que camufla as formas incertas da presença
do outro. Neste exemplo, encontra-se a evidência de que o enunciado escrito
para o Twitter tem a função de um prolongamento, uma replica orientada para a
resposta, que procura atrair o ouvinte a interagir a partir da estrutura externa do
discurso. No grifo de Bakhtin:
“o primado (do diálogo social e da compreensão) pertence
justamente à resposta como princípio ativo: ela cria o terreno
favorável à compreensão de maneira dinâmica e interessada”
(BAKHTIN, 1998, p. 90)
O sujeito enunciador é capaz de compreender o que é dado indispensável
e dado secundário na hora de construir enunciados para o Twitter, um espaço que
só permite massa de texto com até 140 caracteres. Assim, ele percebeu que “Em
cartaz no Deodoro” era um dado imprescindível para o leitor e por isso teve que
se fazer presente no enunciado do Twitter, que não permite subtexto. Essa
expressão condensa a temporalidade e a localização. A temporalidade se
expressa nas palavras “Em cartaz”, enquanto “no Deodoro” pressupõe a dedução
de que é um teatro, mesmo para quem não conhece.
Já no site, que permite reforço e retomada, a localização aparece no
texto “Monólogo da companhia teatral Autores de Laura será encenada neste final
de semana, no Deodoro, no centro da capital” duas vezes: em “Desafio no Palco”
como título. Em ‘Um filho eterno’, a surpresa diante da Síndrome de Down, que já
anuncia que se trata de uma peça de teatro, e mais adiante com a precisão do
local: teatro Deodoro, no centro da capital.
102
Por aí verifica-se que o que cada gênero propicia ao produtor são
aquisições e realizações enunciativas que satisfazem a intenção discursiva nas
formas da existência estética da sua singularidade. Elas se complementam
quando assumem um caráter utilitário e são essenciais para determinar o quanto
adequadamente se realizou a tarefa da “construção composicional” (BAKHTIN,
1998). Admite-se a ideia de que no novo modo de dialogar e de agir, referindo-me
ao modo digitalizado em conexão, o sujeito discursa numa arquitetura estéticocomposicional em rede, de onde ele transforma os enunciados e os articula entre
eles.
3.1 Encaminhamentos para análises sócioideológicas das postagens no
Twitter.
Nesta parte das análises, em cima das massas semióticas que Berg
articulou entre suportes digitais procuramos aplicar nos objetos de discurso
encaminhamentos de análises de interpretações sócioideológicas. Dando-lhe
tratamento de material semio ideológico, procuramos observar como o signo
reflete e refrata “certas tendências ideológicas que o signo e a situação social
inscrevem” (BAKHTIN, 2014, p. 61), ao assumir uma postura de expressão da
consciência de classe, de contradições sociais e também de interesses de
determinados grupos.
A análise permanece nos aspectos da construção composicional que faz
do ato de fala uma disposição de signos que refletem e refratam contradições das
ideologias em jogo. Nesta refração, procuramos distinguir a presença dos
discursos de outrem e as apreciações e entonações na existência discursiva de
Berg, sempre respeitando a maneira como ele cuidou da linguagem e deu
soluções para usa-la socialmente na condição de sujeito do discurso autorizado.
A análise a seguir se compromete tratar o objeto do discurso com as
concepções de sujeito do discurso e sua relação com a linguagem, para constituir
o contexto discursivo que referencia a atividade profissional de Berg e as
aquisições e soluções por ele tomadas quando usa às palavras, no interior do
enunciado. Ao contexto discursivo, demos também o tratamento de conjunto de
material não linguístico, mas, expressivo-objetal, plurilíngue e plurivocal.
103
Nesta perspectiva dialógica da pesquisa, procuramos, ainda, fazer sobre
o estatuto do modo particular de dizer de Berg, uma análise que se detém em
processos de constituição de significados resultados da relação de reciprocidade
entre linguagem e ideologia. Foi selecionado para esse exemplo um
enunciado/imagem, que consideramos estar nos limites das coerções e
ajustamentos ideológico-espaciais existentes no diálogo do aplicativo.
Nota-se nesse exemplo recortado que nos desdobramentos dos
processos enunciativos dialógicos de processos mecanizados, o valor da
estrutura hipertextualizada do enunciado/imagem é a arquitetura mnemônica
(LEVY, 2011 p. 38), usada na construção de sentidos (sempre inacabados) e
ligações intelectuais que o leitor e o autor vão estabelecer na interação a
distância.
Figura 7 – modelo de enunciado no Twitter do site Alagoas Boral.com
Fonte: página no Twitter do site Alagoas Boreall.com
No Twitter, o enunciado se configura no título que é representado pelo
reagrupamento gráfico de texto, imagem e indexação. No diálogo do Twitter, na
condição de enunciado virtual, o título é o gênero, retransmitindo o conteúdo do
104
discurso interior, que registra a transformação da articulação que o enunciado
sofre entre suportes digitais.
Visualizando o espaço discursivo da figura 7 postada no Twitter
verificamos que o enunciado se insere numa janela virtual pequena, onde o
sujeito do discurso explora um reserva potencial de signos e códigos linguísticos
armazenados numa memória digital (a arquitetura mnemônica); essa estrutura
forma uma matriz de enunciados que se realiza na interação com o leitor na
leitura à distância. Verifica-se que no Twitter, assim como acontece nas
interações na ciber cultura (LÉVY, 2000), o hipertexto estimula o diálogo social
em função do momento, dos leitores e dos lugares virtuais (espaço e tempo);
através de uma escritura ciber eficiente (grifo meu) e breve.
No campo dos desdobramentos de sentidos da figura 7, o enunciado “Ifal
exibe filme sobre nazismo entre estudantes e faz oficina de maracatu”, que se
completa com a hashtag #EducaçãoCultura, registra uma das centenas de
manifestações populares, em 2016, que aconteceram após o impeachment da
presidenta eleita Dilma Rousseff. Tão logo a homologação do afastamento da
presidenta eleita pelo voto popular foi feita e o substituto Michel Temer assumiu o
posto, diversas entidades sociais e de classes promoveram ocupações em
prédios públicos, como atos de resistência ao “golpe” na democracia brasileira
(assim considerado pelos simpatizantes da presidenta deposta).
Os segmentos sociais em atitudes de resistência protestavam contra as
propostas apresentadas pelo novo governo em que nelas constavam medidas
que sinalizavam para a redução dos gastos dos investimentos públicos com as
necessidades prioritárias da população (Educação e Saúde, principalmente) e a
extinção do Ministério da Cultura.
Aqui, em Maceió os artistas ocuparam o prédio do Instituto Nacional do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Estudantes e professores ocuparam o
prédio do Instituto Federal de Alagoas do campus Maceió. No enunciado postado
no Twitter, Berg faz o registro de duas atividades da agenda cultural de ocupação
do IFAL, a exibição de um filme e uma oficina de percussão. O tom ameno que
ele dá ao enunciado pronunciando “exibe filme” suaviza o acento agressivo do
tema do filme “sobre nazismo” e ao mesmo tempo se isenta, tenta ficar “neutro”.
No aspecto do contraditório, “oficina de maracatu” aparece no enunciado como
105
elemento linguístico que carrega um sentido oposto ao sentido inicial, um sentido
de resistência cultural não explícita.
Percebemos e sugerimos que a hashtag #EducaçãoCultura representa
força centrífuga, reafirmada na forma de sentido de palavra de ordem no interior
do tema. Aqui, Berg demonstra que é possível, pela linguagem, contornar as
coerções econômicas e os ajustes ideológicos impostos pelos interesses de
certos grupos sociais, quando ele dá a hashtag o tratamento de expressão de
resistência. O que existe nas palavras ‘Educação’ e ‘Cultura’ que Berg usou é um
movimento de instauração de pretensões legítimas de direitos sociais. A hashtag,
como elemento de comunicação de interesse prático, pela linguagem, aparece
impregnada de meios de regulação social.
A expressão semio-enunciativa ‘Ifal exibe filme sobre nazismo entre
estudantes e faz oficina de maracatu’ condensa a temporalidade e a localização
ao mesmo tempo. A temporalidade se expressa nas palavras não ditas, mas que
se pressupõe o período em que o prédio ficou ocupado pelos manifestantes. “Ifal”
sugere deduzir que é um lugar, mesmo para quem não conhece. “Entre
estudantes” estabelece o meio e ambiente do grupo social para o qual o
enunciado assimila fios discursivos na integração reiterada no contexto interior do
discurso. Mais um dado imprescindível para que o leitor se situasse no contexto
que se fez presente no enunciado do Twitter.
A totalidade e inteireza do enunciado ‘Ifal exibe filme sobre nazismo entre
estudantes e faz oficina de maracatu’ que se complementa com hashtag
#EducaçãoCultura se inserem no contexto da, estrutura mnemônica (tomando
emprestada a expressão de Lévy, 2011) no hipertexto, resgatando uma memória
discursiva midiática, sem se deter na memória específica da família de sentidos
do acontecimento (a manifestação)
que originou a postagem. É uma
demonstração de plurilinguismo dialogizado, que deseja dizer algo sobre alguma
coisa para um auditório social premeditado.
O enunciado inscreve um discurso de resistência que Berg interpretou no
tom do enunciado, pelo ponto de vista do presente. Verifica-se que o sentido se
constrói consorciando marcas de polissemia e plurivocidade das palavras
“estudantes”, “nazismo”, “maracatu”, “educação”, “cultura”, etc. no interior da
expressão semio-enunciativa. O signo refratado, aqui, é favorável à relação de
106
diálogo
entre
os
sujeitos
historicamente
definidos,
porque
garante
antecipadamente as respostas de concordância e aceitação, no momento em que
reflexionam apelos ideológicos, nos relatos de discurso outro.
A hashtag e o enunciado, no exemplo 7, que valoram o contexto
discursivo, se inserem no dialogismo, quando tornam também o discurso
inteligível no momento abstrato do projeto concreto e pleno do discurso. E no
interior do projeto concreto individual e pleno do discurso concluso que Berg levou
adiante, quando usou as forças centrífugas para expressar certas posições
ideológicas. A massa semiótica analisada encaminha direções de sentidos sócio
ideológicos do discurso. Sentidos que, através da língua e da linguagem e
movimentados pela dialética do possível, são explicados por meio do
plurilinguismo dialogizado que as estratificações socio-grupais compreendem.
107
Seção 4
4 Considerações finais
Na experiência do processo investigativo que foi executado, de forma
empírica e através de uma abordagem interpretativista de cunho colaborativo,
esta pesquisa procurou estabelecer no objeto de discurso análises das
composições dialógicas no Twitter. Ao aplicativo deu tratamento de campo
comunicativo instável, de lugar em que os signos ideológicos, os enunciados
concretos e as massas textuais semióticas (saturados de ideologias e sob os
efeitos das coerções econômicas), em trânsito, fizessem da linguagem de
textualidade eletrônica o meio e o ambiente interacional de grande circulação de
discursos. O lugar que vitaliza o sujeito que discursa e relativiza o leitor, como
afirma Zozzoli, em práticas de leituras à distância e dimensões cronotópicas
diferentes (ZOZZOLI, 2015).
Procuramos responder a questão da pesquisa, “o que acontece quando o
sujeito pesquisado faz uso de recursos linguístico-discursivos para transportar
enunciados informativos de um suporte digital para outro?” recortando o corpus
de referência da singularidade presente nas expressões semio-enunciativas
transmutadas do site para o aplicativo Twitter e transformadas na articulação
entre suportes, que Berg levou adiante em diversas situações em que ele
construiu discursos do jornalismo da mídia cotidiana.
Nesse aspecto, a autonomia de Berg foi importante ao lidar com novas
práticas discursivas pela penetração do estudo teórico-prático no contexto da
pesquisa. Sempre apoiando o trabalho colaborativo do pesquisador como sujeito
da ação do jornalismo cotidiano, ele nos permitiu fazer uma leitura especializada
dessa atividade de comunicação.
Priorizando o discurso que se materializa na relação de reciprocidade
entre linguagem e ideologia, neste contexto articulamos sujeito e mundo, e
entendimentos sobre os processos enunciativos, na relação e correlação de
disciplinas, sobre os quais propus a questão supracitada. E, do ponto de vista de
sujeito do discurso com seus próprios saturamentos de plurilinguismo social,
tivemos o cuidado de, na singularidade do discurso, procurar atender ao
direcionamento das questões da pesquisa, a partir de processos subjetivos de
108
interpretação. Certificando-se em reconhecer a maneira como Berg usou os
signos que ele colocou em jogo, para compreender e interpretar pelas palavras os
processos de constituição da significação.
No desdobramento da compreensão das práticas e atitudes discursivas
de Berg, alcançamos análises com referência narrativa num princípio descritivo
adaptado à variedade de domínio da enunciação, e obtivemos narrativas com
referências nos estudos sobre as alterações formais e ideológicas que todo
enunciado sofre no momento que se reformula a partir de uma mesma unidade
discursiva (MOIRAND, 2006) e/ou entre suportes midiáticos (ZOZZOLI, 2015).
Nos dizeres que Berg levou adiante nos processos dialógicos. Os conhecimentos
produzidos, numa perspectiva etnográfica e colaborativa (GASPAROTTO e
MENEGASSI, 2016), fizeram do campo pesquisado um lugar de práticas sociais e
de discursos, proporcionadas solidariamente pelos próprios autores sociais, num
contexto de diversas vozes sociais.
Por estar comprometida com as concepções de sujeito do discurso e sua
relação com a linguagem, inicialmente as investigações verificaram que a
composição multissemiótica do enunciado no Twitter tende imitar a composição
do tipo do gênero do discurso da mídia impressa, como foi descrito por Chartier
(2003), segundo o qual, o enunciado, respeitando as devidas proporcionalidades
espaciais, repete a maneira de reagrupar e alinhar graficamente textos e imagens
como no jornalismo impresso. No caso examinado aqui, isso ocorreu com os
elementos infográficos que se complementaram na totalidade discursiva conclusa.
O Twitter mostrou que é um meio adaptado às condições discursivas
mediatas e imediatas e de interesse prático (BAKHTIN, 1998). Chegamos a esse
ponto de vista reconhecendo nos parâmetros conceituais referentes às estruturas
hipertextuais a materialidade de um sistema de indexações e endereçamentos
agrupados ao conteúdo do enunciado, a velocidade das atualizações e
abrangência de circulação e alcance. Um entendimento que buscamos nos
estudos de Lévy (2011) quando diz que, na ciber cultura, a máquina de leitura cria
novos gêneros discursivos ligados à interatividade hipertextualizada.
No texto de Berg no Twitter, verificamos que o enunciado se configurou
no título, na condição de imagem/enunciado da narrativa, e que, além de lhe dar a
qualidade da categoria de signo híbrido, quando usou a hashtag e endereços na
109
web, ele saturou de marcas sócioideológicas e alterações apropriadas para as
ocorrências de leituras à distância; marcas que representam nas formas de
movimento da língua os múltiplos sentidos descentralizados das forças
centrífugas, através da coesão do todo dos fragmentos enunciativos das forças
centrípetas.
Comparadas a certos aspectos do dialogismo, reconhecemos nas práticas
e atitudes de escrituração de Berg no jornalismo cotidiano a igualdade das forças
de movimento da língua presentes no tema, na composição e no estilo, que se
valorizam quando se configuram virtualizadas na dinâmica do grande diálogo
social (BAKHTIN, 1998). Vimos que as diversas formulações e reformulações e as
transposições
são
consequências
dos
processamentos
mecânicos
que
respondem pelas transformações da estrutura enunciativa, adaptados a partir da
estrutura original da massa textual semiótica em jogo. Foi imprescindível nesse
estudo referenciar a objetivação com o que Bakhtin (2003) reporta aos estudos de
novos fenômenos no campo da linguagem e do discurso, que aqui representou as
sucessivas publicações de natureza puramente factual.
Tornou-se
evidente
no
enunciado
de
Berg
que
as
mudanças
correspondem a uma estrutura de texto hipertextualizado, que ajusta na massa
semiótica certa relação entre texto, endereçamentos (as zonas do www),
indicativos (as hashtag) e imagens. Essa estrutura do enunciado/título no Twitter
é uma forma enunciativa multissemiótica, que ultrapassa as fronteiras das
composições enunciativas discursivas do jornalismo tradicional, quando liga os
fios discursivos do universo do signo (BAKHTIN, 2003) ao potencial genérico
(ADAM E HEIDMAN, 2004) do discurso típico dos enunciados informativos, que
se relacionam de forma dialética com um sistema cibernético.
Verificamos também que a hashtag apareceu na massa textual semiótica
do Twitter na função de marcador translíngue e plurilíngue, a partir do potencial
genérico; e de lá, ela pode relatar outro discurso no interior do discurso,
submetendo-se aos interesses imediatos do sujeito e das situações sociais. Nas
ações discursivas de Berg em suas práticas enunciativas do jornalismo cotidiano
no ambiente virtual, a hashtag marcou os ajustamentos e as coerções ideológicas
e econômicas, exercendo controle sobre a polissemia. Do ponto de vista de Lévy
110
(2011) esse é um recurso usado nos caso que se pretende restituir uma
equivalência de sentidos preexistentes.
Sob o efeito contemporâneo do diálogo social midiatizado, esse
entendimento conduziu a reflexões sobre a hashtag classificando-a de
representante de um tipo particular de escrituração atravessada por grandes
retilíneas ideológicas, na confluência entre o temático e as relações sociais
elementares. Essa reflexão tem respaldo no comentário de Chartier (2002),
segundo o qual, na interação discursiva de textualidade eletrônica, a linguagem
disputa o monopólio sobre a linguagem “assim estabelecida a partir da
modalidade própria de seus suportes” (ibidem 2002, p. 109).
Na confluência entre o temático e as relações sociais elementares, a
hashtag carrega conteúdos de resistência, das forças de desunião e
descentralização, quando se permite representar e traduzir desde reivindicações
de grupos sociais colocados à margem, até ideias diferentes daquelas da maioria.
Nos enunciados de Berg, se comparado ao que diz Lévy (2011), a hashtag criou,
recriou e reatualizou o mundo de significados que somos, reafirmando o aspecto
nômade ao qual o autor se refere aos signos inscritos no virtual.
Submetendo aos fundamentos dos aspectos desse estudo, na esfera das
relações
sociais,
arrisco
afirmar
que,
no
modo
do
jornalismo
na
contemporaneidade, a virtualidade do instante discursivo no Twitter de sucessivas
escritas e reescritas vem concentrando certas atividades e costumes culturais de
comunicação a um dispositivo temático que virtualiza os relacionamentos. Através
de práticas discursivas dialógicas que tem origem nas relações sociais e
econômicas, e que ajustam os conflitos das lutas de classes e os antagonismos
ideológicos.
Durante os momentos vivenciais, ficou evidente que os valores do
conteúdo transmitidos pela cibercultura alimentam a inteligência coletiva, nos
quais ela se desenvolve e tece pequenas e importantes variações e inovações
discursivas, hoje. Nos planos da discursividade enunciativa, que foi apresentado
no exemplo das figuras 5 e 6, o gênero foi submetido a transformações, na
totalidade do impacto das formas genéricas sobre o desenvolvimento da
comunicação.
111
Numa perspectiva relativa aos fatos de reformulação do enunciado
discutida nesta pesquisa, na singularidade da realidade do signo que Berg levou
adiante no exemplo das figuras 5 e 6, constatamos que as escriturações no
jornalismo cotidiano permitem que a linguagem esteja sempre em movimento, se
adaptando segundo os objetivos e as condições de produção, ajustada com a
velocidade de atualização da informação. Deixa de lado o interesse pela ênfase
do enunciado que desloca a leitura para o que é informado (LAGES, 2003), em
favor dos comprometimentos sócio ideológicos em jogo.
Os conflitos e desdobramentos das estruturas enunciativas que Berg
levou adiante representam essa mudança significativa no comportamento de
interação sociocomunicativa na contemporaneidade. Formas de ler, escrever e
constituir sentidos sob a determinação da virtualização, que foram registradas nas
atuais práticas de escrituração jornalística da mídia cotidiana e revelam o elevado
processo de hibridação do discurso entre homem/máquina/linguagens.
Foi na realidade exterior das minhas próprias questões linguísticas, onde
arrisquei maneiras diferentes de abordar o objeto de discurso dessa pesquisa.
Sem a pretensão de encontrar verdades científicas, busquei me apropriar de uma
proposta metodológica que se ajustou a um contexto transdisciplinar e
interpretativista de análises sobre as questões que envolvem atividades de
comunicação e o uso da linguagem na contemporaneidade.
Enfim, na experimentação de uma etnografia interpretativista que
explorou um campo teórico saturado de vozes sociais, foi possível estruturar o
campo das representações uso social da linguagem, numa situação singular
discursiva no Twitter, pelo olhar qualificado que a experiência direta com o
ambiente estudado proporcionou. Durante o processo investigativo e analítico, na
condição de sujeito dialógico e comprometido na obtenção de dados, cuidei para
que as leituras empíricas dos processos subjetivos de interpretação estivessem
em sintonia com as situações consideradas indissociáveis nas tomadas de
decisões.
No que diz respeito aos aspectos das pesquisas atuais em L.A.
contemporânea, configurou-se, para mim, um exercício dialógico materialista e
histórico de compreensão da vida pela língua e a linguagem e a relação do sujeito
com o mundo. Foi essencial compreender o outro, me colocando na condição do
112
outro, de onde vi e compreendi outro sujeito, na singularidade do outro e seu
mundo – e, pela alteridade, relativizei a mim, o meu mundo e a minha condição de
sujeito do discurso na condição do outro.
Considero, portanto, que a pesquisa contribuiu para uma compreensão
efetiva da situação com a linguagem escrita na atividade de comunicação de
interesse prático, cuja relevância é de aproximar a academia ao uso social da
linguagem para além dos muros da sala de aula. Considero também que o
trabalho atendeu ao objetivo de converter as informações derivadas de teorias
diferenciadas, aos parâmetros de alguns aspectos do dialogismo referentes ao
uso social da linguagem no Twitter, e que isso ajudou a esclarecer o que
acontece na conversão e transmutação do enunciado quando se articula entre os
suportes digitais.
113
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sala de aula. (pp. 18 - 37). Maceió: EDUFAL. 2015.
116
APÊNDICE A – Questionário
Questões preliminares
01. Você domina conhecimentos de uso do microblogging? Se sim, quais?
02. Qual a forma que você produz postagem no microblogging Twitter?
03. Qual a razão de você usar o microblogging?
04. O que você espera do uso sociocultural no Twitter?
05. O que você gostaria discutir sobre a produção de enunciados no Twitter?
117
APÊNDICE B – Questionário
Questões complementares (perguntas de reflexão)
01. O que você aprendeu no encontro de hoje?
02. O que você mais gostou?
03. O que você menos gostou?
04. Você sentiu alguma dificuldade na produção de informação e nas postagens
no microblogging? Se sim, qual?
05. O que você gostaria de discutir nos próximos encontros?
